Cerca de uma centena de viticultores manifestou-se ontem, em Peso da Régua, contra os baixos preços pagos pela uva e a falta de escoamento da produção. No final do protesto, uma delegação foi recebida pelo presidente do IVDP, Gilberto Igrejas, que, em declarações exclusivas ao VivaDouro, reconheceu a urgência dos produtores e defendeu a concretização das medidas previstas no Plano Executivo para a Região Demarcada do Douro.
A concentração, promovida pela CNA e pela AVADOURIENSE, decorreu junto às instalações do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP) e juntou cerca de uma centena de viticultores. Em causa estão os baixos preços pagos pelas uvas, que, segundo os produtores, em muitos casos ficam abaixo dos custos de produção, mas também as dificuldades de escoamento e a indefinição quanto aos preços para a próxima vindima.
Os viticultores reclamam medidas concretas e imediatas, defendendo, entre outras reivindicações, contratos obrigatórios para a compra de uva, a proibição da aquisição abaixo dos custos de produção, a utilização de aguardente de origem regional no Vinho do Porto, um reforço da fiscalização e uma destilação de crise que permita reduzir os excedentes e proteger sobretudo os pequenos e médios produtores.
A contestação surge num momento particularmente delicado para a Região Demarcada do Douro, numa campanha em que a produção deverá aumentar significativamente. Para os produtores, o aumento da oferta, sem uma resposta correspondente ao nível do escoamento e da valorização da uva, poderá agravar ainda mais uma situação que consideram insustentável.
Berta Santos, dirigente da CNA, tem alertado para as consequências que a crise poderá ter na estrutura produtiva da região. “Ou algo é feito para os pequenos e médios produtores, ou veremos parte da região ser abandonada em breve”, afirmou, defendendo que está em causa não apenas o rendimento dos viticultores, mas a própria sustentabilidade económica e social do território duriense.
A manifestação contou também com a presença do presidente da Câmara Municipal de Tabuaço, José João Patrício, que se juntou aos viticultores e população do concelho. O autarca tem vindo a defender publicamente a importância da pequena e média viticultura para o futuro do Douro, tendo afirmado que “se os pequenos e médios viticultores abandonarem as vinhas, o turismo no Douro termina no dia a seguir”.
IVDP: “O importante agora é concretizar as medidas”
No final do protesto, uma delegação dos manifestantes foi recebida pelo presidente do IVDP, Gilberto Igrejas, a quem entregou um documento com as reivindicações dos produtores.
Em declarações exclusivas ao VivaDouro, Gilberto Igrejas começou por sublinhar que o instituto respeita o direito à manifestação, lembrando, ao mesmo tempo, que as organizações representativas dos produtores participaram no processo que esteve na origem do Plano Executivo para a Região Demarcada do Douro.
“Respeitamos inteiramente o direito à manifestação. As confederações participaram no processo de auscultação e muitas das matérias que defenderam estão expressamente contempladas no Plano Executivo para a Região Demarcada do Douro”, afirmou.
O presidente do IVDP reconhece, contudo, a urgência sentida pelos produtores e considera que a prioridade deve agora passar da definição das medidas para a sua concretização.
“Compreendemos a urgência dos viticultores; precisamente por isso, o importante agora é concretizar as medidas e continuar a aperfeiçoá-las onde isso seja possível e legalmente admissível”, acrescentou.
Questionado pelo VivaDouro sobre a resposta concreta às reivindicações entregues pela delegação de viticultores, Gilberto Igrejas considera que uma parte significativa das propostas já está contemplada no Plano apresentado recentemente pelo IVDP ao Governo.
“Grande parte dessas reivindicações encontra já resposta no Plano: aguardente de origem regional, custos de produção de referência, contratos, ajustamento do potencial produtivo, redução de excedentes e medidas de valorização económica e ambiental da viticultura”, explicou.
O presidente do IVDP garante ainda que o instituto mantém disponibilidade para continuar a trabalhar com o setor, mas deixa uma ressalva relativamente ao processo de implementação das medidas.
“Estamos disponíveis para continuar a trabalhar sobre essas propostas, mas as decisões têm de respeitar a lei e, quando aplicável, os mecanismos próprios do Conselho Interprofissional”, afirmou.
Produtores querem medidas já para esta vindima
É precisamente no calendário de execução das medidas que permanece uma das principais divergências entre os produtores e as entidades responsáveis pelo setor. O Plano para o Douro prevê um conjunto de respostas estruturais, incluindo contratos escritos e mecanismos de valorização da uva, mas os viticultores defendem que a situação atual exige medidas que tenham efeitos já na vindima de 2026.
Para a CNA e a AVADOURIENSE, não basta definir soluções para os próximos anos quando muitos pequenos produtores dizem estar já perante dificuldades para suportar os custos de produção. A preocupação é agravada pelo aumento esperado da produção e pela necessidade de garantir o escoamento das uvas.
A concentração terminou com a entrega das reivindicações ao IVDP e com o compromisso de continuar a acompanhar a concretização das medidas anunciadas. Para os produtores, a expectativa é agora perceber se as respostas previstas no Plano para o Douro terão tradução prática e capacidade para travar a perda de rendimento na pequena e média viticultura.
Entre a rua e as instituições, a mensagem deixada ontem na Régua foi clara: os viticultores querem respostas para a próxima vindima, enquanto o IVDP garante que muitas das soluções reclamadas já estão previstas e que o desafio passa agora pela sua concretização dentro do quadro legal.