O percurso de Marta Lourenço no mundo do vinho começou quase por acaso. O sonho de infância era outro: “o meu sonho de vida era ser terapeuta ocupacional”. A vida, porém, acabou por levá-la para a enologia, área que inicialmente nem estava nos seus planos.
Formou-se em Engenharia Agroalimentar, no ramo de Tecnologia de Vinhos, licenciando-se em Qualidade Alimentar, e mais tarde aprofundou conhecimentos com uma pós-graduação em Sistemas Integrados de Gestão do Ambiente, Qualidade e Segurança. Atualmente continua a investir na formação, com novos cursos ligados à viticultura.
O ponto de viragem aconteceu durante um estágio em Santa Vitória, ao lado de Bernardo Cabral. Foi ele quem a incentivou, quase obrigou, como recorda com humor, a seguir a enologia. “Eu nunca quis trabalhar em vinhos”, admite. “Acabei por seguir esta área porque a minha professora de enologia cismou comigo que eu tinha de ir fazer uma vindima com o Bernardo.” O estágio era remunerado e isso acabou por convencê-la. A partir daí, o rumo ficou traçado.
“A meio do estágio tive de ir à Universidade para me matricular e o meu objetivo era ir trabalhar para o Bonduel ou Compal, algo ligado à produção agrícola, pela minha ligação familiar à terra. Matriculei-me em Hortifruticultura, quando regressei ao estágio o Bernardo deu-me cabo da cabeça porque deveria seguir enologia. De alguma forma, não sei bem como ele conseguiu ligar para a escola e alterar a minha matrícula para Tecnologia de Vinhos e informou-me já do facto consumado”.
Hoje soma mais de duas décadas ligadas ao universo dos espumantes. Depois de passar pela Raposeira e de uma experiência em Cava, regressou à região do Távora-Varosa para integrar Murganheira, onde permanece há 20 anos.
Mãe, esposa, empresária e enóloga. É assim que Marta Lourenço se descreve, entre risos, quando questionada sobre quem é. “Tento ser um bocadinho disso tudo”, afirma. A multiplicidade de papéis acompanha o ritmo exigente de quem assume responsabilidades na enologia e na viticultura de duas empresas. Uma tarefa exigente que, admite, “dá muitas dores de cabeça”, mas que considera essencial para produzir vinhos de qualidade.
Para a enóloga, o trabalho na adega começa muito antes da chegada das uvas. A chave está na vinha. “Percebi que para ser assertiva na adega tenho de ir à vinha”, explica. É ali que tudo começa. “Um vinho nasce na vinha, temos de tratar bem a vinha para dar boas uvas.”
A forma como olha para a videira traduz essa ligação. “Eu olho para a videira como eu, é um ser vivo tal e qual como eu, só não fala nem anda”, diz. Como qualquer organismo vivo, precisa de cuidados: alimentação, água e atenção constante. Só assim é possível alcançar o objetivo maior: “um grande vinho nasce na vinha”.
Essa visão tem também orientado o caminho da empresa rumo à produção biológica, um processo que considera inevitável. “É um caminho sem retorno”, afirma. Mais do que uma estratégia produtiva, é um projeto coletivo que envolve toda a equipa. “Tenho um orgulho enorme em todos que trabalham connosco. A equipa está motivada e leva o que aprende aqui para as suas casas.”
Na Murganheira, o trabalho faz-se lado a lado. A proximidade entre equipa e liderança é um dos aspetos que mais valoriza. “Muitas vezes é uma ou duas da manhã e eles continuam aqui a trabalhar ao nosso lado”, conta. “É um orgulho trabalhar assim.”
O percurso, no entanto, nem sempre foi fácil. No início da carreira, Marta Lourenço enfrentou resistências num setor tradicionalmente masculino. “Quando cheguei à Murganheira eu falava e os meus colegas simplesmente ignoravam-me”, recorda. Dava indicações e ninguém respondia: “viravam costas e seguiam o seu caminho”. Hoje sente que o panorama mudou. “Agora é menos difícil”, diz, sublinhando que a crescente visibilidade das mulheres na enologia contribuiu para alterar mentalidades.
Outra expressão que a enóloga rejeita é o clássico “foi sempre assim que se fez”. Para Marta Lourenço, “a inovação é indispensável, especialmente num setor que depende tanto da evolução técnica e do conhecimento científico”.
A região do Távora-Varosa oferece, na sua opinião, condições excecionais para a produção de espumantes. “Deus abençoou esta região da melhor forma possível”, afirma. “O segredo está na altitude e no microclima: baixa precipitação durante o ciclo da uva, invernos rigorosos e uma amplitude térmica muito acentuada entre dia e noite”.
Entre maio e setembro, explica, as condições são particularmente favoráveis. “Conseguimos ter noites de zero graus e o dia a chegar aos 27”, diz. Esta combinação contribui para a sanidade da vinha e para o equilíbrio natural das uvas.
A biodiversidade também desempenha um papel fundamental. “Quem vier aqui em maio, num metro quadrado de vinha é capaz de encontrar 100 joaninhas”, conta, sublinhando “a riqueza natural do território”. Esse equilíbrio permite produzir vinhos naturais e equilibrados, sem necessidade de “maquilhagem”.
Os números confirmam a singularidade do terroir. “Nunca tive ninguém que me dissesse que tem uvas com 13,5 de grau e 17 gramas de ácido tartárico”, afirma. Mesmo em regiões de referência mundial, como Champagne, essa combinação é rara. “Conseguem a mesma acidez, mas o grau dificilmente chega aos 11.”
A vindima deste ano é aguardada com expectativa positiva. Depois de várias colheitas prejudicadas por verões muito secos, a chuva trouxe esperança. “Este ano choveu muito, há muita humidade no solo”, explica, acreditando que as condições poderão resultar numa colheita de grande qualidade.
A produção de espumantes, sublinha, “exige tempo, paciência e muito trabalho manual”. Um exemplo é o espumante Grande Reserva da casa, com cerca de 20 anos de estágio. “Isto tem custos, é empate de capital, mas também muito trabalho manual”, explica.
Recentemente terminou um processo que durou dois meses: a agitação manual das garrafas na cave. “Pegamos na garrafa e mexemos para que as leveduras se espalhem”, descreve. Um trabalho feito “garrafa a garrafa, todos os anos, em busca da perfeição”.
Entre os espumantes que produz, escolher um favorito não é tarefa simples. Ainda assim, confessa ter uma preferência. “Nunca escondi que um dos meus favoritos é o Milésime”, diz. O vinho resulta do blend de duas castas que aprecia particularmente: Chardonnay e Pinot Noir.
Ao olhar para o percurso profissional, Marta Lourenço faz questão de deixar uma palavra à equipa que a acompanha diariamente. “Um obrigado muito grande pelo carinho e apoio”, afirma. A liderança, acredita, constrói-se pelo exemplo. “Acredito que para obter o respeito das pessoas devemos trabalhar ao lado delas, e eu sempre o fiz.”
A história recente do Távora-Varosa também merece destaque. Para a enóloga, “o desenvolvimento da região deve muito ao trabalho de várias personalidades, entre elas o professor Orlando Lourenço e o antigo ministro Arlindo Cunha, que defenderam a criação de uma estrutura própria para a região”. Atualmente, considera que “esse trabalho continua através da ação da Comissão Vitivinícola Regional Távora-Varosa e do seu presidente, José Pereira, que tem feito um trabalho muito bom de promoção da região”.
Duas décadas depois de ter entrado na Murganheira, Marta Lourenço continua a olhar para o futuro com ambição. Há ainda um sonho por cumprir: fazer uma vindima completa em Champagne. Por agora, já lá esteve apenas dois dias. Mas a vontade mantém-se. “Gostava de fazer uma vindima inteira".