Estimados Leitores,
Os incêndios que voltaram a devastar Portugal em 2025 não destruíram apenas florestas.
Arrasaram também negócios, empregos e a base económica de territórios já frágeis. O fogo, que consumiu mais de 250 mil hectares não ficou confinado ao mato: entrou pela vida das pessoas diretamente afetadas e atingiu os estabelecimentos que arderam. Mas também afetou gravemente hotéis, restaurantes, explorações agrícolas, organizações de produtores e zonas de caça, negócios que sustentam comunidades inteiras.
Na hotelaria e na restauração, dezenas de unidades viram-se cercadas pelas chamas com os clientes a cancelaram reservas em plena época alta. Sofreram prejuízos incalculáveis.
O turismo que, para muitas aldeias, é a principal fonte de rendimento, ficou reduzido a cinzas: clientes fugiram, eventos foram suspensos, trilhos e património natural que atraíam visitantes desapareceram. Num setor onde cada verão pode significar a sobrevivência de um negócio, este foi um verão perdido.
E dos apoios anunciados nada se fala da perda de faturação destas unidades nem de como vão ser compensadas, pois se os proveitos deixaram de existir os custos não diminuíram, pelo contrário até aumentaram em alguns casos.
As zonas de caça, que representam não apenas lazer, mas também biodiversidade e economia, ficaram devastadas. Com habitats destruídos, espécies dizimadas e falta de recursos para repovoamento, muitas associações cinegéticas enfrentam agora o risco de encerrar.
Estas organizações são vitais para a gestão do território, pois mantêm aceiros, criam pontos de água, controlam espécies. Mas, sem apoio rápido, ficam sem receitas e sem futuro.
As organizações de produtores agrícolas e florestais, já sobrecarregadas com burocracia e margens reduzidas, perderam infraestruturas, culturas, animais e capacidade de operação.
No caso da castanha há regiões em que a quebra é de 90%. Quando uma cooperativa e/ou organização de produtores perde a capacidade de comercializar os produtos dos seus associados vai, obviamente, perder a margem de comercialização que lhe permite pagar os custos fixos e vai ser impossibilitada de cumprir as suas obrigações. Não se perde apenas a margem, perde-se a capacidade de escoar a produção, de manter os mercados fidelizados, de apoiar os agricultores e de gerar rendimento para centenas de famílias.
Estes prejuízos não podem ser tratados como “colaterais”. São danos centrais numa economia rural que sustenta o país. Sem hotéis, não há turismo; sem caça, não há associativismo nem biodiversidade gerida; sem organizações de produtores, não há agricultura organizada nem floresta com futuro.
Se a resposta aos agricultores, através de um apoio máximo de 10,000 Euros e da possibilidade de apresentarem projetos de recuperação para valores maiores está razoavelmente assegurada, para estes negócios afetados nada existe. E são estes negócios que movimentam a economia, principalmente nos territórios de baixa densidade populacional, mas com óbvios reflexos em todo o país.
O Estado não pode limitar-se a prometer apoios tardios e insuficientes. É urgente criar mecanismos imediatos de compensação, linhas de crédito bonificado e incentivos específicos para negócios afetados pelo fogo. Porque cada semana sem resposta é uma semana de falências, de despedimentos e de abandono.