Há várias gerações que a família Salta Monteiro está ligada à terra e à viticultura duriense. Hoje, a Quinta dos Nogueirões transforma esse legado em vinhos e azeites de identidade própria, com os olhos postos nos mercados internacionais, mas sem abdicar das raízes em São João da Pesqueira.
Na margem direita do Rio Torto, em pleno coração do Douro, há uma história de família que começou muito antes de existir uma marca chamada Quinta dos Nogueirões. Desde os anos 70, a família Salta Monteiro dedicava-se à produção e comercialização de uvas destinadas a grandes produtores de vinho do Porto e do Douro. Décadas depois, cinco irmãos decidiram dar um novo rumo ao património familiar e transformar essa relação com a terra num projeto com identidade própria.
“A decisão de criar uma marca própria nasceu da vontade da nossa família Salta Monteiro de valorizar o trabalho desenvolvido ao longo de várias gerações e de dar continuidade ao seu legado no Douro”, explica Hélder Monteiro. Em 2011, nascia assim a Quinta dos Nogueirões, com uma nova ambição: deixar de produzir apenas matéria-prima para outros produtores e passar a criar vinhos e azeites com nome, identidade e assinatura da própria família.
O caminho foi construído de forma gradual. Nos primeiros oito anos, a empresa recorreu a serviços externos de vinificação, numa fase que permitiu conhecer o mercado e consolidar o projeto. Em 2018, surgiu um dos momentos decisivos da história da quinta, com a construção da própria adega. “Foi um marco importantíssimo para a nossa família, porque significou passar de uma atividade tradicional de produção de uvas para a criação de produtos próprios, com uma identidade e uma marca familiar, mantendo ao mesmo tempo a ligação à terra e ao legado das gerações”.
A nova adega trouxe também autonomia. Desde a receção das uvas à fermentação, estágio, engarrafamento e rotulagem, a Quinta dos Nogueirões passou a controlar diretamente todas as etapas do processo. “Isso garante um maior controlo da qualidade e melhor consistência dos vinhos”, sublinha Hélder Monteiro.
Mais do que uma questão operacional, o investimento permitiu à família definir com maior liberdade o caminho da marca. A Quinta dos Nogueirões passou a apostar em vinhos premium e super premium, produções limitadas e edições especiais, procurando afirmar-se num segmento onde a diferenciação e a autenticidade assumem um papel determinante.
Um terroir marcado pelo Rio Torto e pelo xisto
A identidade dos vinhos começa, naturalmente, na vinha. As propriedades da Quinta dos Nogueirões estão localizadas na margem direita do Rio Torto, em São João da Pesqueira, numa das zonas mais emblemáticas da Região Demarcada do Douro.
Para Hélder Monteiro, há dois elementos fundamentais na personalidade dos vinhos da quinta: “O Rio Torto e o xisto são elementos fundamentais na personalidade e tipicidade dos nossos vinhos”.
O território é trabalhado parcela a parcela, procurando adaptar as castas às características de cada solo e tirar o melhor partido das diferentes exposições e condições existentes. A gestão da vinha passa também por práticas que procuram conciliar produtividade, qualidade e sustentabilidade, como a remoção mecânica de ervas daninhas.
“Temos o melhor de dois mundos: um terroir privilegiado, marcado pelo Rio Torto e pelo xisto, e o conhecimento e dedicação de uma família com várias gerações ligadas à terra”, afirma. É precisamente nessa conjugação entre natureza e saber fazer que a Quinta dos Nogueirões procura encontrar a sua identidade.
O resultado pretende ser mais do que um vinho produzido numa determinada região. “É desta conjugação entre natureza e saber fazer que procuramos produzir vinhos de excelência, que expressem verdadeiramente o melhor do nosso território”.
Conhecer o vinho, mas também quem está por trás dele
A relação com o território não termina na produção. Nos últimos anos, a Quinta dos Nogueirões tem vindo a apostar também no enoturismo, mas seguindo uma filosofia muito própria.
“Essencialmente, não apostamos num turismo massificado. Queremos proporcionar uma experiência mais dedicada, próxima e autêntica, onde conseguimos transmitir verdadeiramente a nossa essência”.
A ideia é que quem chega à quinta tenha oportunidade de conhecer muito mais do que os vinhos. As vinhas, a adega, o território e, sobretudo, a história da família fazem parte de uma experiência que pretende aproximar o visitante da origem de cada garrafa.
“Queremos que quem nos visita não venha apenas provar um vinho, mas conhecer o território onde ele nasce, as nossas vinhas, a nossa adega e, acima de tudo, a nossa história e família, que estão por detrás da Quinta dos Nogueirões”.
A aposta nesta área vai, aliás, conhecer novos desenvolvimentos. Está prevista a criação de um espaço dedicado à receção de visitantes, provas e lazer, abrindo caminho a novas experiências. Hélder Monteiro deixa, contudo, algum mistério sobre aquilo que a família está a preparar: “Em breve daremos um novo passo na área do Enoturismo com a criação de um espaço dedicado à receção, provas, lazer e... algo mais que por agora fica em suspenso”.
O objetivo é claro: criar ofertas diferenciadoras e personalizadas, mantendo o espaço como uma extensão da identidade da própria família. “Queremos que este espaço seja uma extensão daquilo que somos enquanto família e enquanto marca: um lugar de encontro, de partilha e de descoberta, sempre com a nossa essência e ligação às nossas raízes”.
Crescer sem perder a identidade
O futuro da Quinta dos Nogueirões passa pela consolidação da marca e pela conquista de novos mercados, mas sem transformar o crescimento num objetivo absoluto.
“O nosso objetivo não é crescer a qualquer custo. Queremos crescer no mundo, mas sem deixar de ser o que somos na origem”.
A estratégia passa por continuar a trabalhar num segmento de elevado valor e de nicho, onde a qualidade, a autenticidade e a identidade possam distinguir os vinhos da quinta num mercado cada vez mais competitivo.
É uma ambição internacional, mas com os pés bem assentes em São João da Pesqueira. Porque, para a família Salta Monteiro, levar os Nogueirões mais longe não significa afastá-los das suas origens. Pelo contrário: significa valorizar ainda mais aquilo que torna este projeto único.
“Crescer sim, mas não massificar; queremos continuar a ser uma marca diferenciada e premium”.
Entre o Rio Torto, o xisto e as vinhas durienses, a Quinta dos Nogueirões está, assim, a escrever um novo capítulo de uma história familiar com décadas. Uma história que começou na produção de uvas e que hoje chega à garrafa, ao visitante que percorre a quinta e, cada vez mais, a novos mercados. Sempre com a mesma premissa: crescer sem esquecer de onde se veio.