Com profundas raízes no Douro, Luís Leucádio cresceu entre vinhas, socalcos e histórias contadas à sombra das adegas. A ligação ao território nunca foi apenas geográfica, foi emocional, quase instintiva.
Desde cedo soube que queria sair para estudar, alargar horizontes e ganhar ferramentas, mas com uma certeza inabalável: regressar “a casa” e aplicar esse conhecimento na região que o viu crescer.
Entrou em Gerontologia com esse objetivo, mas “em 15 dias” percebeu que aquele não era o caminho e entra em Engenharia Agronómica, em Viseu, seguindo a paixão que já desenvolvia pelo mundo dos vinhos. A decisão pode ter parecido abrupta, mas, na verdade, resultou de um processo interior que vinha sendo construído há anos, alimentado por experiências precoces e responsabilidades assumidas ainda na adolescência.
“Quando eu era pequeno os meus pais viviam numa quinta em que o proprietário era um professor aposentado de química que tinha gosto em fazer algum vinho, e chamava-me sempre como seu adegueiro. Foi aí, por volta dos 12, 13 anos que comecei a ter responsabilidades no vinho e a levar aquilo muito a sério, aprendendo muito com ele, mesmo ainda não tendo esse gosto.
Quando chegou à altura de concorrer para a universidade, já trabalhava a meio tempo nessa quinta, na vinha e na adega, e já tinha o bichinho dos vinhos dentro de mim, mas claro, como jovem daquela geração queria era sair e explorar novos caminhos. Na primeira fase concorri para Gerontologia, completamente oposto a esta área, mas 15 dias depois percebi que não era por ali e na segunda fase mudei de rumo. Aí também houve a decisão consciente de não ficar em Vila Real, nem no curso de Enologia, não queria estar tão focado na parte da enologia, daí ter procurado um curso mais amplo, para depois me especializar na área com que mais me identificasse e acabou mesmo por ser a enologia”.
A escolha por Engenharia Agronómica em Viseu revela uma visão estratégica sobre o seu próprio percurso. Mais do que aprender a fazer vinho, Luís Leucádio queria compreender o ecossistema completo que o sustenta: o solo, a planta, o clima, a gestão agrícola, a sustentabilidade e a economia da fileira. Essa base alargada permitiu-lhe construir um perfil técnico sólido, mas também uma abordagem integrada ao setor.
Para Luís Leucádio, a formação foi mesmo essencial para formar o enólogo que hoje é, dando-lhe a possibilidade de estudar outras áreas da fileira.
“A escolha do curso permitiu-me não estar tão preso à ideia clássica do que é o papel do enólogo. Seguir Engenharia Agronómica em Viseu foi consciente porque o curso misturava agronomia com enologia, e a partir do segundo ano escolhi a área de viticultura e enologia. Senti que esta opção me dava mais conhecimentos, ficaria mais completo na aprendizagem do mundo do vinho”.
Essa visão abrangente reflete-se na forma como encara a profissão. Para o enólogo duriense, o papel deste técnico está longe de se limitar à adega ou ao momento da fermentação. É uma função transversal, estratégica e decisiva para o sucesso do projeto vínico.
“Atualmente o enólogo tem um papel crucial desde a criação do vinho, tendo opinião sobre plantação da vinha, perfis e adequação dos terrenos, até ao final da cadeia. Está presente desde a videira até à venda final, mesmo na parte comercial, do negócio, ele tem um papel fundamental. É uma profissão multissetorial.
Quanto mais envolvido e a par está de toda a criação, muito melhor pode ser desenvolvido todo o trabalho de enologia”.
Sem qualquer experiência fora de Portugal, Luís Leucádio construiu, ainda assim, um percurso diversificado dentro do país, trabalhando com diferentes regiões vitícolas. Uma opção que, longe de ser limitadora, acabou por se revelar altamente enriquecedora, obrigando-o a adaptar métodos, leituras e interpretações a realidades distintas.
“Como estava a estudar e trabalhar ao mesmo tempo, acabei por nunca sair. Tinha uns professores que tinham uma empresa de enologia na qual ficaram sem o colaborador responsável por essa área, acabaram por me convidar para integrar a equipa e ficar responsável pela parte de enologia.
Comecei a trabalhar em Viseu, na Vines & Wines, com a parte de enologia em duas vertentes, apoio aos clientes e laboratório. Prestávamos apoio a quem quisesse analisar os seus vinhos e quisesse algum aconselhamento rápido”.
Este primeiro contacto profissional consolidou competências técnicas e aproximou-o da realidade prática de dezenas de produtores. O trabalho de consultoria exigia rapidez de diagnóstico, capacidade de decisão e sensibilidade para respeitar a identidade de cada projeto.
O regresso ao Douro, por vontade própria, surge como um movimento natural. A ligação à região falou mais alto e motivou a saída de Viseu. Mantém, no entanto, a vertente de consultoria, trabalhando com o professor João Cabral de Almeida, “uma pessoa que me ajudou e que me colocou a trabalhar com ele em algumas quintas, nomeadamente a Quinta do Estanho e outros projetos mais pequenos, na zona dos Vinhos Verdes em Amarante, e em Sabrosa.
Depois surgiram outras oportunidades como ficar responsável de vinhos como a Quinta do Cardo ou a fronteira, no Douro, e comecei a criar uma carteira de produtores a quem dava apoio e me dedicava a tempo inteiro”.
A construção dessa carteira de clientes foi também a construção de uma identidade profissional. À medida que acumulava projetos e experiências, crescia igualmente a vontade de afirmar uma visão própria, sem filtros, sem intermediários — um vinho que traduzisse integralmente a sua interpretação do território.
É no meio de todo este trabalho que vai crescendo a vontade de assinar um projeto em nome próprio que se veio a revelar ao mundo como Titan of Wines.
“Em 2015 tive a oportunidade de iniciar o meu projeto pessoal, criei o Titan of Wines e comecei a fazer vinhos do Douro, Távora-Varosa e Beira Interior. Hoje assumo este projeto quase por completo tendo ainda algumas consultorias que faço”.
Com o Titan of Wines, Luís Leucádio assume um compromisso claro com a autenticidade e com o conceito de “vinhos de lugar”. Cada garrafa é pensada como uma interpretação fiel da origem, sem excessos estilísticos que descaracterizem o terroir.
Para Luís Leucádio, produzir vinhos em várias regiões vinícolas é um desafio. Mas também a oportunidade de experimentar diferentes perfis de vinhos, dando-lhes sempre um carácter fiel à sua origem geográfica.
“A polivalência é o sentido de enologia dos vinhos que gosto de fazer, vinhos com sentido de lugar. Gosto de interpretar o local, a região, toda a multiculturalidade e fazer vinhos à medida, vinhos que reflitam bem de onde vêm.
É fácil, nesse caso, conseguir fazer vinhos diferentes. Os lugares são diferentes, os climas, as uvas. Faço a interpretação de tudo e permite-me trabalhar como gosto. Como enólogo isto para mim é fundamental, não consigo ficar preso ao mesmo sítio, ao mesmo formato estandardizado. Gosto de procurar e encontrar coisas diferentes que me ajudem a criar vinhos diferentes mesmo dentro da própria região”.
A liberdade criativa que um projeto próprio proporciona poderia sugerir uma rutura com a lógica da consultoria. No entanto, Luís Leucádio sublinha que sempre soube separar papéis e adaptar-se às necessidades de cada produtor.
“Aprendi a ter esse cuidado e desligar o chip do enólogo criador e ligar o do enólogo ‘prestador de serviço’. Devo ouvir o meu cliente, juntando isso à minha interpretação e ao terroir que tem para criar vinhos com singularidade. Quem me procura quer alguma identidade nos seus produtos, nunca trabalhei para uma empresa de grande volume que tivesse essa filosofia.
A empresa maior onde trabalhei foi a Companhia das Quintas, mas como estava dividida por 10 regiões, com diferentes enólogos. Apesar de no global ser uma empresa de volume, não era um produtor de vinhos standard. O facto de ter quintas em diferentes regiões permitia desenvolver vinhos de diferentes perfis. No fundo até aí tive a sorte de poder fazer e criar”.
Entre a consultoria e o projeto próprio, entre o Douro e outras regiões, Luís Leucádio construiu um percurso coerente com a sua visão: um enólogo interventivo, atento ao detalhe e profundamente ligado ao território. Mais do que fazer vinho, procura interpretá-lo e, ao fazê-lo, reafirma a convicção de que a identidade nasce do lugar, mas ganha forma nas mãos de quem o sabe escutar.