Nunca tinham estudado Medicina na UTAD. Nunca ninguém tinha estudado Medicina na UTAD. É precisamente essa circunstância que torna os primeiros dias dos 40 alunos que integram a primeira turma do novo curso particularmente diferentes.
Há a responsabilidade de serem os primeiros, a curiosidade de participar no nascimento de um projeto que demorou anos a concretizar-se e, para alguns, a descoberta de uma cidade onde nunca tinham vivido. Pelo meio, existe também a expectativa de perceber se o modelo pensado pela universidade será capaz de cumprir uma das suas ambições maiores: formar médicos e, quem sabe, criar condições para que alguns deles decidam ficar no território.
Alexandra Ferreira, de Famalicão, nunca tinha visitado Vila Real. Tinha, contudo, referências da região através da família, em Montalegre. Quando chegou à cidade para iniciar o curso, encontrou uma realidade que rapidamente começou a conhecer. "É uma cidade calma, com tudo perto e tenho gostado bastante", conta a estudante, que colocou a UTAD como quarta opção na candidatura. A escolha acabou por representar também uma aposta num projeto ainda por construir. "Sermos os primeiros alunos do curso dá sempre alguma ansiedade extra, mas ao mesmo tempo é uma honra e o curso tem tudo para ser muito bom."
A ideia de que, daqui a alguns anos, pertencer à primeira geração de médicos formados pela UTAD possa assumir um significado especial já faz parte das expectativas de Alexandra. "Considero que daqui por uns anos será prestigiante dizer que nos formamos na UTAD." É uma sensação partilhada pela turma, ainda que cada estudante tenha chegado a Vila Real por caminhos diferentes.
Ana Luísa Rocha, também de Famalicão, escolheu a UTAD como terceira opção, depois do Porto. Já conhecia Vila Real, mas não o campus universitário. Os primeiros dias, diz, têm confirmado a expectativa criada em torno de um curso que ainda está a ganhar forma. "Tem sido uma experiência muito boa nestes primeiros dias." Mais do que a novidade, a estudante destaca a forma como está a ser acompanhada. "Sentimos que os professores e os médicos que nos acompanham estão a fazer de tudo para que a licenciatura resulte."
A dimensão reduzida da turma é, desde logo, uma das características que os estudantes sentem no quotidiano. São apenas 40 alunos, número deliberadamente definido pela universidade para permitir um acompanhamento mais próximo e uma relação mais individualizada. É também uma das componentes que mais agradam a Alexandra, sobretudo através da figura do tutor. "Este formato de ensino com tutores é muito bom para nós. O facto de sermos poucos alunos facilita esse trabalho mais personalizado." Cada estudante terá um médico tutor que o acompanhará ao longo dos seis anos do curso, numa relação que deverá estender-se à própria definição do percurso académico, incluindo a escolha da tese de mestrado.
Para Pinto de Sousa, diretor da licenciatura de Medicina, esta foi uma das decisões estruturantes do projeto. A criação do curso partiu de uma reflexão mais ampla sobre as necessidades de saúde de Trás-os-Montes e sobre a possibilidade de construir uma formação médica com características próprias. O ponto de partida esteve no Centro Académico Clínico, pensado para desenvolver investigação clínica aplicada e responder aos problemas de uma população marcada pela dispersão territorial e pelas dificuldades de acesso aos cuidados de saúde. A partir daí começou a ganhar forma a ideia de uma Escola de Medicina integrada nesse sistema e capaz de se diferenciar dos modelos já existentes.
Uma dessas diferenças está precisamente na relação entre professores e alunos. "Desde logo tentamos estabelecer um rácio docente-aluno muito pequeno", explica Pinto de Sousa. A opção por limitar as entradas a 40 estudantes não foi, por isso, meramente quantitativa. Pretende criar as condições para um acompanhamento individualizado durante os seis anos de formação.
É uma lógica que se estende à própria organização do ensino. Em vez de uma separação rígida entre disciplinas tradicionais, como Anatomia e Fisiologia, o curso pretende trabalhar a partir de situações clínicas concretas, recorrendo ao modelo de Case Based Learning (CBL). Um caso, como a icterícia, pode servir de ponto de partida para abordar simultaneamente diferentes dimensões do problema, reunindo conhecimentos de anatomia, fisiologia e clínica. O objetivo é que o estudante não aprenda cada área como uma peça isolada, mas perceba desde cedo como diferentes conhecimentos se cruzam na prática médica.
Para os alunos, essa aproximação à realidade clínica é uma das novidades mais evidentes. Ana Luísa considera particularmente importante não ter de esperar vários anos até perceber como é o contacto com os doentes. "Podermos ter o contacto com a prática médica logo desde o início é muito positivo para nós." A estudante conhece colegas que frequentam Medicina noutras universidades e que ainda não tiveram essa experiência, o que, na sua perspetiva, pode fazer diferença também numa fase posterior do percurso. "É uma vantagem para nós, até para depois podermos perceber que especialidade queremos."
A aproximação à prática não ficará limitada aos hospitais. Um dos objetivos do curso é levar os estudantes também aos Centros de Saúde e a diferentes realidades do território, permitindo-lhes conhecer uma população que não vive concentrada nos grandes centros urbanos. É uma componente que obrigou a universidade a trabalhar com os municípios, nomeadamente para assegurar condições de deslocação dos alunos.
É neste ponto que a dimensão regional do projeto se cruza com a ambição de formar médicos. Pinto de Sousa entende que o contacto com o território pode ser determinante para que os estudantes criem uma ligação à região durante os seis anos de formação. "Tudo isto com o objetivo de fixar estes futuros médicos no nosso território." Não há, naturalmente, qualquer garantia de que isso aconteça. O percurso profissional de cada estudante será decidido mais tarde e dependerá de múltiplos fatores. Mas a universidade pretende que a relação com a região comece precisamente durante a formação.
Afonso Andrade, de Cabeceiras de Basto, percebe essa possibilidade. Escolheu a UTAD como segunda opção e já conhecia a região, embora nunca tivesse vivido a cidade de Vila Real. Os primeiros dias, diz, têm sido "incríveis e históricos". A responsabilidade de integrar a primeira turma está presente, mas também a sensação de participar numa experiência que não se repetirá. "Sermos os primeiros alunos é algo especial para nós, obviamente sentimos alguma ansiedade extra, mas pelo que tenho visto acredito que temos todas as condições para construir aqui um curso muito bom."
Afonso olha também para a questão da integração na cidade como um fator que poderá ter consequências muito para além dos seis anos de formação. "A realidade é que este é um curso de seis anos, temos tempo para nos integrar na vida da cidade, conhecer pessoas, e isso certamente que terá peso na nossa decisão." É precisamente esse tipo de ligação que a universidade pretende estimular. Para Pinto de Sousa, estes estudantes chegam ainda muito jovens e terão pela frente tempo suficiente para criar relações pessoais, académicas e profissionais com o território. Depois, caberá também aos hospitais e aos municípios criar condições capazes de transformar essa ligação numa opção profissional.
A primeira turma é, por isso, simultaneamente o ponto de chegada de um processo longo e o ponto de partida de um projeto que ainda está a ser construído. A acreditação atribuída ao curso é, nesta fase, válida por dois anos. Durante esse período, a UTAD terá de demonstrar que reúne as condições necessárias para consolidar a formação, sendo posteriormente sujeita a um novo processo de avaliação. Pinto de Sousa reconhece que este período colocará o curso sob uma atenção particular. "Durante este período temos de mostrar se somos capazes de aguentar isto ou não, por isso estamos debaixo dos holofotes durante este período."
A exigência não é apenas académica. Criar um curso de Medicina implica montar uma estrutura considerável para uma turma de apenas 40 estudantes. Levi Leonido, vice-reitor da UTAD, aponta precisamente para essa dimensão do desafio. "É uma novidade, mas também um grande desafio, não só do ponto de vista logístico, mas também financeiro." A universidade está a adaptar espaços para receber os alunos, que começaram temporariamente a sua formação na Biblioteca Central, enquanto se prepara uma solução definitiva.
A dimensão do corpo docente é reveladora dessa exigência. Para assegurar a componente letiva, a UTAD contratou 95 médicos em regime de tempo parcial através das parcerias estabelecidas, aos quais se junta o corpo docente interno envolvido em algumas unidades curriculares. No total, são 113 professores para acompanhar os 40 estudantes da primeira turma. "É um curso bastante exigente sobre todos os pontos de vista", resume Levi Leonido.
Essa dependência de profissionais externos é assumida como uma solução necessária para o arranque, mas não como o modelo definitivo. À luz do contrato-programa, a universidade terá de abrir em breve vagas para integrar docentes no seu quadro interno. A intenção é reduzir progressivamente uma dependência que, embora permita colocar o curso no terreno, não poderá ser permanente.
A própria infraestrutura acompanha essa construção gradual. Neste momento, os estudantes têm as condições consideradas necessárias para iniciar a formação, mas a universidade prepara um edifício novo dedicado ao curso. A atual utilização de espaços adaptados é, por isso, uma solução transitória. "Neste momento os alunos têm as condições mínimas, mas não são aquelas que desejamos que tenham", reconhece o vice-reitor.
Enquanto o edifício definitivo não chega e o modelo académico ainda está a ser afinado, a primeira turma vai avançando num curso que também está a criar as suas próprias rotinas. Levi Leonido descreve-o como "o início de uma equipa nova, rotinas diferentes que estamos a tentar criar". É uma realidade particularmente evidente para os 40 estudantes, que não têm gerações anteriores a quem perguntar como são as aulas, quais são os melhores caminhos dentro do curso ou como funciona a experiência académica.
Essa ausência de referências anteriores é, simultaneamente, uma responsabilidade e uma oportunidade. Alexandra Ferreira encara a circunstância com alguma ansiedade, mas sobretudo como um privilégio. Afonso Andrade fala em dias "históricos". Ana Luísa Rocha destaca a proximidade com os professores e médicos. São perspetivas diferentes sobre a mesma experiência: a de entrar para uma formação que ainda não tem passado na UTAD.
Também por isso, a primeira turma será inevitavelmente uma espécie de laboratório para o próprio curso. O percurso destes estudantes permitirá à universidade perceber o que funciona, o que precisa de ser ajustado e de que forma o modelo desenhado para Medicina se comporta na realidade. Ao mesmo tempo, os alunos serão os primeiros a experimentar a combinação entre ensino transversal, tutoria individual, contacto clínico precoce e ligação ao território.
Há ainda uma outra experiência dentro da própria universidade que poderá ajudar nesse caminho. A UTAD conta há décadas com a formação em Medicina Veterinária, atualmente uma das suas áreas de maior reconhecimento. Levi Leonido considera que a experiência acumulada nessa área pode ser aproveitada na implementação da nova formação médica. "Medicina veterinária é histórico e tem feito um percurso incrível nos últimos anos", explica, apontando para uma atividade já consolidada e com rotinas que podem ajudar a universidade a enfrentar os desafios logísticos e académicos de um curso de saúde com uma dimensão muito exigente.
A diferença está, naturalmente, no facto de Medicina estar agora a começar. E começa com uma turma pequena, escolhida num concurso de acesso que colocou os 40 lugares entre os mais disputados da universidade. Os estudantes chegaram depois de escolherem entre diferentes possibilidades e, em alguns casos, deixando para trás opções em cidades com tradição mais longa na formação médica.
Alexandra colocou a UTAD como quarta opção. Ana Luísa escolheu-a depois do Porto. Afonso entrou como segunda escolha. São percursos diferentes, mas com um ponto em comum: todos acabaram por escolher fazer parte da primeira geração de estudantes de Medicina da UTAD.
Agora, terão seis anos para descobrir Vila Real, o território, os hospitais, os centros de saúde, os professores, os médicos e os próprios colegas. A universidade terá seis anos para transformar um curso novo numa formação consolidada. E a região terá esse mesmo período para tentar criar com estes estudantes uma relação que ultrapasse a sala de aula.
Os primeiros 40 já chegaram. A partir daqui a história da Medicina na UTAD começa também a ser escrita por eles.