Helena Lapa é a primeira mulher eleita autarca no distrito de Vila Real, um epíteto que não considera ser um peso mas um orgulho e uma preocupação. Numa conversa com o VivaDouro a autarca sabrosense emociona-se a falar da “sua terra”, apresentando alguns projetos para vila duriense.
Ser autarca implica uma dedicação ao cargo que vai muito além das habituais 8h de trabalho, pessoalmente, como é que isto se gere?
Essa gestão torna-se mais difícil também pelo facto de ser mulher porque a nossa vida não termina ao fechar a porta do gabinete e ir para cassa. Há uma vida depois disso, organizar a casa, a família… há sempre outras coisas. Mas nós mulheres temos essa capacidade.
O facto desta disponibilidade me obrigar a ter os fins de semana sempre com uma agenda muito preenchida, porque faço questão de marcar presença em todos os eventos aos quais posso ir, leva de facto a sacrificar muito da vida pessoal.
O que eu peço sempre é que me deem um dia por semana, se tiver um dia na semana já recarrego energias. (risos)
As decisões que toma no seu dia a dia nem sempre são do agrado unânime da população, como autarca que peso tem a opinião dos munícipes nas suas decisões?
Quando acredito em algo, acredito mesmo, com todas as forças do meu ser.
Devemos sempre procurar o consenso mas, quando isso não acontece, resta-nos respeitar. Devemos sempre respeitar quem tem uma opinião diferente, quem pense diferente. É através desse respeito que se chega a consensos, é a única via.
É uma mulher de consensos?
Sim, tento sê-lo em todos os planos da minha vida, pessoal e profissional. Sempre fui assim.
É a primeira mulher eleita autarca no distrito de Vila Real. Sente algum peso com esta afirmação?
Não. Sinceramente não.
Até de facto ser eleita foi algo que me passou completamente ao lado, não tinha sequer qualquer ideia disso. Só comecei efetivamente a dar valor a esse facto quando as pessoas, sobretudo a comunicação social, começaram também a valorizar.
Ser a primeira mulher eleita autarca no distrito de Vila Real não é um peso, é mesmo um motivo de orgulho mas também alguma preocupação.
Já tenho dito isto muitas vezes porque as mulheres têm as mesmas capacidades que os homens. Não têm é o mesmo tipo de disponibilidade, sobretudo mulheres mais jovens, com filhos mais pequenos e todo esse lado pessoal para gerir mas, estamos no século XXI, chegou a horas das mulheres se assumirem. Já nos assumimos na ciência, na investigação, na cultura… porque não na política? Isto não é um campo de homens.
Há quem diga que faltam mais mulheres na política, acredita nisso?
Acredito. Uma coisa eu tenho a certeza absoluta, na atual guerra da Rússia contra a Ucrânia, se fossem mulheres presidentes, isto não acontecia. Tenho a certeza absoluta.
A mulher não é belicista, a mulher é criação, não é destruição.
Falando em criação, se me permite usar o seu termo, o que pretende “criar” em Sabrosa ao longo deste seu primeiro mandato?
Desde logo, e de uma forma mais genérica, criar melhores condições de vida àqueles que cá estão, tentando atrair gente para o território. No fundo, o objetivo de qualquer autarca no interior. A perda de população e a baixa natalidade é preocupante e dramático. Sem gente não se consegue fazer nada.
Para isso temos implementado algumas políticas de incentivo à natalidade é à fixação dos mais jovens.
Uma medida que tomamos e que tem tido sucesso, ainda que não seja por agora possível inverter os números que são muito difíceis, é a atribuição de creches gratuitas a todas as crianças.
Vamos lançar, no início do próximo ano escolar, o programa de refeições gratuitas aos alunos da pré-escola, e damos um apoio de 1500€ por cada criança nascida no concelho.
São algumas medidas que vão pelo menos fazendo as pessoas ponderar a saída. Em primeiro lugar o que devemos fazer é conseguir manter os que já cá estão, sobretudo os mais jovens.
É óbvio que falta muito mais. Falta habitação e emprego, que são condições básicas para que as pessoas se possam fixar.
É difícil conseguir chegar a todo o lado e esse é o lado mais “frustrante” deste lugar. É querer que algo aconteça mas não sem ter os meios necessários. Mas isto não sou apenas eu, Helena Lapa autarca de Sabrosa, é um problema de todos e não é apenas material.
Este problema de desertificação do interior já vem acontecendo há décadas, é um movimento que iniciado é difícil conter a sua marcha.
Podia o Governo ajudar tomando algumas medidas específicas para estes territórios?
Eu sou muito a favor da descentralização das competências.
O autarca é aquele que melhor conhece o seu território e as suas necessidades, seja na educação, na saúde ou apoio social, por exemplo. Estamos muito próximos e podemos ajudar a resolver situações que dificilmente se resolveriam tão rapidamente. Porque infelizmente Lisboa ainda é muito longe.
Mas o Governo pode ir mais longe, e dar mais competências às autarquias, nomeadamente na gestão de recursos humanos de quadros qualificados, como médicos por exemplo.
No nosso Centro de Saúde um médico chega, fica uns meses e, assim que há oportunidade vai para um grande centro, devemos ter outra capacidade de gerir estas situações.
Outra medida que se fala sempre é a criação de benefícios fiscais para estes territórios.
É também um problema de mentalidade, das pessoas procurarem sempre mais os grandes centros?
Já vamos tendo gente, sobretudo mais jovens, com uma filosofia de vida diferente. Que procura, muito mais do que um emprego muito bem remunerado, um local onde consiga ter uma boa qualidade de vida e tempo para a família.
Uma família jovem que pretenda criar os seus filhos com segurança, tempo, educação… seja o que for, encontra aqui tudo isso, ou bastante próximo. Há quem procure isso, temos que saber aproveitar a oportunidade e fazer as apostas certas.
Quando conheço algum casal jovem que vive num grande centro coloco-lhes sempre uma questão, quanto pagam de creche. Dizem-me 300, 400, 500 euros… só lhes repondo que em Sabrosa a creche é gratuita.
Mas não é só a questão do orçamento familiar, é também o tempo disponível para a família, e sobretudo para as crianças. É isso que temos para dar e que devemos promover. É algo que os grandes centros não podem dar.
Sabrosa é terra de Fernão Magalhães e de Miguel Torga, só pra lembrar dois grandes nomes. Um deu a volta ao Mundo, o outro viu a sua obra circular o Mundo. Sabrosa é este Mundo num pequeno território por descobrir?
Sabrosa é uma terra com alma, com uma alma grande…
Vejo-a emocionada…
Não consigo dizer isto sem me emocionar. É mesmo isso, somos um território pequeno mas com gente de reconhecido mérito mundial, que nem sempre valorizamos como são valorizados lá fora.
Nunca nos iremos alhear dessas figuras do nosso concelho e de outras, mais ou menos conhecidas, que tiveram um papel fulcral na nossa história, temos uma terra rica em talentos.
Mas sente que ainda falta o Mundo descobrir Sabrosa? Olhando para o setor do turismo, tão relevante na região, por exemplo.
No sentido geral, não temos a pretensão que Sabrosa seja uma rota turística de massas, se bem que a ideia possa parecer positiva.
Sabrosa tem uma particularidade que é muito interessante e que lhe confere a beleza que tem, o facto de se dividir entre a parte sul, próxima do rio com todas as características que conhecemos da região, e a parte norte, com características mais montanhosas, uma realidade completamente distinta, mesmo até na forma de ser e estar das populações.
Tenho obviamente algumas ideias de como poderemos promover todo o nosso território mas não é algo que dê frutos nos curto prazo. Acredito que também é a nossa função, ao passar por este cargo, deixar uma marca que permita aos vindouros seguir um caminho de progresso.
É frustrante ver por exemplo, os barcos que vêm ao Douro, atracar no lado norte do rio que é onde estamos, e nem sequer passarem pelo nosso território, irem diretos ao Palácio de Mateus em Vila Real.
É óbvio que o nosso centro histórico precisa de melhoramentos. Precisamos dinamizar aquele espaço mas, sobretudo, Sabrosa tem que deixar de ser um sítio de passagem para ser um local de acolhimento, que receba.
Nós sabemos receber e acolher bem, é uma característica nossa que temos de ter oportunidade de mostrar para que as pessoas conheçam.
Era uma marca que gostava de deixar na sua governação, esta mudança de realidade turística no território?
Sim, mas não propriamente como uma marca pessoal, nem apenas neste setor.
Tem aí à sua frente um projeto que pretendemos implementar na vila. Obviamente que ainda vai estar em discussão pública mas pretendemos avançar com ele. A propósito da discussão desse projeto, há dias alguém me disse que eu tinha que deixar a minha marca governativa. Não é isso que pretendo, não é para isso que estou neste cargo. Pretendo deixar a possibilidade das coisas se transformarem e evoluírem num determinado sentido, criando as condições para tal.
Ainda há duas semanas fui a Lisboa falar diretamente com a Ministra da Coesão Territorial sobre os projetos que tenho para o concelho, tentando perceber que candidaturas podemos promover para os implementar.
Falou que tenho aqui à minha frente um projeto que pretende implementar na vila, que projeto é esse?
No caso concreto é o projeto do Mercado Municipal.
Outra grande obra que gostaria de concretizar é a via do Pinhão ao Ferrão, transformando-a numa via panorâmica. É uma estrada paralela ao rio Douro e é um crime estar no estado em que está.
Outro dos projetos que pretendo implementar é um espaço dedicado ao volfrâmio, temos um património material e imaterial riquíssimo, que está em vias de se perder. Já pedi, e está a ser feito, o levantamento testemunhal, há pessoas ainda vivas que trabalharam nas minas. Esse património não se pode perder.
Isto não são ideias vagas, são tudo ideias que já estão em andamento e tudo muito trabalhado na minha cabeça.
Estamos também já numa fase avançada de negociações para a aquisição de uma quinta no centro da vila que era de um descendente do Conde de Mateus, a Quinta de Mouras, que está completamente ao abandono e em riscos de ruir. Tenho várias ideias para o que poderá ser aquele espaço mas ainda nada muito concreto, sendo que não passará por grandes construções. É o coração da vila e o coração da vila tem que ter uma identidade.
Se há coisa que valorizo muito é o Património. Reconheço que as novas construções nos permitem ter condições a todos os níveis que a melhor recuperação de um edifício antigo não consegue ter. Não podemos deixar que os edifícios antigos se deteriorem e ruam, fazendo novas construções que descaracterizam completamente, isso não.
É uma garantia que deixa?
Isso pode ter a certeza. E só não compro mais património existente porque não temos condições financeiras.
Temos que preservar o nosso património, estamos também a tratar de recolher dados sobre o nosso património religioso.
Falamos da nossa história, da nossa identidade, daquilo que fomos e que somos.
Aquilo que melhor nos descreve é o passado?
É a História, e contra isso não há nada a fazer. Somos o reflexo de toda a civilização anterior a nós, que foi deixando a sua obra, á qual não podemos agora virar costas e deixá-la ao abandono.