Mesão Frio Sociedade

José Alves eleito Produtor do Ano 2025 pela Revista Grandes Escolhas

José Alves atravessava a Quinta da Rede ainda em criança. Fazia-o todos os dias, caminho para a escola, usando as vinhas como atalho entre a aldeia e o futuro. Décadas mais tarde, regressaria ao mesmo lugar não apenas como proprietário, mas como um dos nomes mais respeitados do Douro contemporâneo.

A distinção da Quinta da Rede como “Produtor do Ano 2025” pela Revista de Vinhos/Grandes Escolhas surge agora como o culminar de um percurso construído lentamente, onde a persistência parece ter sido sempre tão importante como o vinho.

José Alves trabalhava já ligado ao setor vinícola quando soube que a quinta estava à venda. Não tinha capital suficiente para a comprar. Pediu dinheiro emprestado a amigos e familiares e avançou. “A aquisição desta quinta teve um propósito comercial, claro que sim, mas havia também uma ligação sentimental”, recorda. “Quando era criança atravessava esta quinta para ir para a escola.”

Regressou a Mesão Frio, foi viver para casa da sogra e, juntamente com a mulher, começou praticamente do zero. Enquanto ela frequentava um curso de Jovem Agricultor, o casal submeteu um projeto VITIS para reconversão da vinha. O objetivo era claro desde o início: criar uma marca própria. “Já fazia vinhos para outros, por isso pensei: porque não fazê-los também para mim?”

Ao contrário de muitos projetos que procuram resultados rápidos, a Quinta da Rede cresceu devagar. José Alves comprou a propriedade em 1995, mas só construiu a adega em 2007. Pelo meio houve anos de preparação silenciosa, reconversão de castas, estudo dos solos e mudança de orientações de vinha. “Para termos vinhos de qualidade precisávamos primeiro de uma videira forte e saudável.”

Situada em Mesão Frio, no Baixo Corgo, a propriedade beneficia de um clima mais fresco e atlântico do que grande parte do Douro. Durante muitos anos, esta sub-região foi vista como menos prestigiada face ao Cima Corgo ou ao Douro Superior. Mas as alterações climáticas mudaram o mapa da região. Hoje, as zonas de maior frescura e altitude tornaram-se particularmente valorizadas.

“Sempre acreditei no Baixo Corgo”, afirma José Alves. “Durante muito tempo os seus vinhos não foram valorizados, mas as condições mudaram.” A Quinta da Rede tornou-se um dos símbolos dessa mudança. Enquanto muitos produtores continuam associados a vinhos densos e muito maduros, os vinhos da casa afirmam-se pela frescura, tensão e elegância.

Não é por acaso que os brancos se tornaram a grande assinatura da quinta. Em 2008, José Alves reuniu um grupo de amigos para provar os primeiros vinhos produzidos na nova adega. Entre eles estava o enólogo Anselmo Mendes. “Disse-me que se a quinta fosse dele não plantava uma videira de tinto, apenas brancos.”

“A nossa notoriedade vem sobretudo dos vinhos brancos”, admite. “Estamos numa zona limite dos Vinhos Verdes e isso dá-nos características muito particulares.” Características que se traduzem em vinhos tensos, minerais, de acidez viva e perfil atlântico.

O reconhecimento nacional chegou em força nos últimos anos. Em 2022, a Quinta da Rede venceu a Grande Medalha de Ouro e o prémio de Melhor Blend nacional com o Vinha do Pinheiro Branco 2018, um vinho criado em homenagem aos netos Bernardo e Benedita. José Alves estava em casa, doente com Covid-19, e não pôde comparecer na cerimónia. “Chorei muito, não tenho vergonha de o dizer. Um miúdo da aldeia ver o seu vinho ser o melhor entre os melhores foi emocionante.”

No ano seguinte a Quinta da Rede repetiu o feito com o Grande Reserva Branco 2019, confirmando a consistência do projeto.

Apesar dos prémios, a dimensão familiar da Quinta da Rede mantém-se intacta. “A minha mulher acorda às cinco da manhã para ir buscar os trabalhadores. Os filhos também estão envolvidos. Todos aqui são importantes.” Quando recebeu o prémio de Produtor do Ano, uma das primeiras chamadas que fez foi para o homem do trator. “Disse-lhe que o prémio também era dele.”

José Alves acredita que o Douro enfrenta hoje um momento decisivo. “Antigamente um pai deixava uma quinta a um filho e deixava uma fonte de rendimento. Hoje deixa um problema.” Defende uma maior união entre os agentes da região e uma promoção internacional forte. “Nós não temos vinho a mais. Temos vendas a menos.”

No fundo, o percurso da Quinta da Rede ajuda a contar a transformação silenciosa que o Douro atravessa. Um Douro onde a altitude ganhou importância, onde a frescura se tornou um valor central e onde produtores como José Alves provaram que o Baixo Corgo pode produzir alguns dos vinhos mais elegantes e precisos do país.

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