Recém-eleito reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), o responsável assume como prioridades a consolidação do Mestrado Integrado em Medicina, a conclusão dos investimentos financiados pelo PRR e a recuperação da avaliação institucional plena. Defende uma universidade mais próxima da região, com maior ligação às empresas e aos municípios, capaz de fixar talento e afirmar-se como motor de desenvolvimento de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Assumiu recentemente a reitoria da UTAD. Chegar à liderança de uma instituição onde construiu grande parte do seu percurso académico e profissional é uma consequência natural ou era um objetivo que já tinha?
Não, não era um objetivo meu.
Nas últimas eleições estive na equipa do Professor Emídio Gomes por acreditar que se poderia fazer algo diferente.
Passado algum tempo percebi efetivamente que o trabalho que se estava a desenvolver não estava de acordo com a minha forma de estar e pensar, tendo acabado por me demitir a meio do mandato.
Quando o Professor Emídio é eleito reitor, não estava de todo nos meus planos ser reitor. Pela lógica ele faria dois mandatos e, tendo em conta a minha idade, no final dos mesmos estaria em idade de reforma, por isso nunca foi uma questão para mim.
O reitor tem de tratar muitos assuntos diferentes e, tenho de ser honesto, alguns mais agradáveis de serem resolvidos que outros.
Já tinha sido Pró-Reitor e estava como Vice-Reitor, sempre nas áreas da tecnologia e ligação às empresas, que no fundo é a área em que me sinto mais confortável e estava focado nas minhas funções.
Esta ideia surge mais tarde, quando começo a perceber que o caminho que a liderança do Professor Emídio ia por um caminho com o qual eu não concordava e com o qual não me identificava. Não fazia sentir estar numa equipa não concordando com o rumo seguido.
No seguimento disto começa a surgir a ideia de me candidatar a reitor e houve um conjunto de colegas que considerou que podíamos construir um caminho diferente, apoiando a minha ideia.
Portando, a minha candidatura é algo que acontece de uma forma natural.
A experiência que traz de já ter estado como Pró-Reitor e Vice-Reitor, é algo que o ajuda agora?
Sim, sem dúvida. Cresci muito com os cargos que desempenhei na universidade.
Desde a primeira experiência com o Professor Sequeira, como com o Professor Fontaínhas, e até mesmo no período que ainda estive com o Professor Emídio.
Por exemplo, com o Professor Fontainha eu era Pró-Reitor para a inovação, captamos na altura um conjunto de empresas para a nossa incubadora e algumas delas acabaram mesmo por ficar aqui na cidade. Empresas que começaram com 2 ou 3 funcionários e hoje têm já algumas dezenas.
Foi um período de grande desenvolvimento. Aliás, esta ligação com as empresas e a região é algo que pretendo fomentar.
A eleição aconteceu depois de um período particularmente complexo na vida da universidade. Que universidade encontrou quando tomou posse e quais são, neste momento, os principais desafios que sente necessidade de enfrentar?
Neste momento tenho três ou quatro preocupações.
Desde logo é colocar o Mestrado Integrado em Medicina a trabalhar, é uma área em que não tínhamos os meios necessários para começar a trabalhar.
Com um trabalho intenso que se fez em conjunto com o Governo assinamos um contrato-programa, que ainda tive oportunidade de rever em conjunto com o Ministro Fernando Alexandre e que nos trouxe algum suporte importante para colocar esta formação a funcionar.
Mas esta é apenas uma parte do processo, depois há todo o outro lado da operacionalização. Este é um processo que eu apanho já no final, não tenho muito espaço para intervir, tomei posse dia 21 de julho e, entretanto, tivemos um mês de férias pelo meio.
Tal como está, é uma boa solução?
É a solução que existe e única, neste momento.
Teria feito um conjunto de coisas diferentes, claramente, mas é o que temos e estamos a fazer tudo para que o curso arranque nas melhores condições. Aliás, as mudanças que me refiro são mais da gestão e organização, não tem qualquer interferência na parte que interessa aos alunos diretamente.
Outra preocupação, esta de cariz financeiro, é o final do PRR. Temos um conjunto de investimentos, nomeadamente as residências, que têm prazos muito apertados para terminar com consequências de podermos perder financiamento.
Tem uma noção exata de como as coisas estão neste momento?
Tenho, aliás, foi das nossas primeiras preocupações, inteirar-nos do que se passava neste campo.
Conseguirão concluir todas as obras em tempo útil?
A grande maioria sim. Até ao final do ano acredito que teremos todos os investimentos concluídos. Neste momento só temos uma obra com algum atraso que é a Residência de Codessais.
No final destas obras teremos cerca de 1200 camas, acredito que até ao final do ano atingiremos a meta das 1000 camas disponíveis nas residências para os nossos estudantes.
Qualquer atraso é sempre preocupante, neste caso, porque pode implicar a perda de financiamento e isso, para nós, seria muito complicado. O investimento que estamos a fazer é de cerca de 7 milhões de euros, qualquer alteração terá um forte impacto.
Tinha referido outras preocupações além da medicina. Quer referir mais alguma?
Sim, há um outro aspeto que nos preocupa bastante neste momento.
Durante o último mandato a universidade recebeu uma avaliação condicionada, algo que limita muito a ação da instituição.
Vínhamos com uma avaliação de seis anos sem condições e ficamos com uma condicional de três anos.
É um assunto no qual estamos já a trabalhar, não vamos ficar à espera da próxima avaliação, até porque a UTAD não merece isso, temos condições para ter uma avaliação plena.
Muitos dos que nos leem não saberão o que é uma avaliação condicional, pode-nos explicar do que se trata?
É uma avaliação em que a Comissão coloca um conjunto de questões que é preciso resolver nestes três anos.
Por exemplo, referem que há diferentes políticas de gestão entre as unidades orgânicas da universidade. Isso não pode acontecer, tem de haver um Plano Estratégico com o qual estejam todos alinhados. Outro exemplo é a internacionalização, um fator que tem de ser melhorado.
São alterações que serão resolvidas sem grande dificuldade. Acho que houve uma falha de comunicação com a Comissão, a UTAD tem todas as condições para ter uma avaliação plena.
Há uma coisa que devemos todos ter em mente, se a avaliação institucional for negativa, só há um caminho, fechar as portas.
Não é sequer um cenário, mas é bom recordar esta questão.
Esta avaliação condicional tem efeitos práticos no dia a dia da UTAD?
Sim, tem.
Por exemplo, a acreditação de um curso é dada mediante a avaliação da universidade. Se tiver uma avaliação plena essa acreditação é quase imediata.
Depois há toda uma série de projetos que também dependem disso. Não podem existir universidades públicas sem uma avaliação plena.
Regressando ao tema do curso de medicina. Que impacto terá este curso, não só na universidade, mas também em toda a região?
O curso de medicina tem impacto na universidade, na cidade e na região.
Olhando ao exemplo que temos de outras universidades, o curso de medicina traz visibilidade e ajuda a alavancar outras áreas ligadas à saúde, não só na parte do ensino, mas também na parte da investigação. É claro que isto é um processo a longo prazo.
Como já disse, a medicina terá de crescer por ela própria, não à custa de nenhuma das outras áreas.
Relativamente à cidade é positivo porque desde logo são mais estudantes que vêm para Vila Real. Por outro lado, é uma área em que precisamos de fixar profissionais, não só na cidade, mas em toda a região. É um trabalho que deve ser feito tanto pela nossa instituição, como pelos municípios. Os meios e as condições proporcionados a estes jovens serão essenciais para que eles se fixem.
A própria ULS tem também a possibilidade de captar novos profissionais, não entre os estudantes, mas também com os profissionais que virão lecionar.
A primeira acreditação do curso é condicionada e haverá uma nova avaliação. Está confiante de que a UTAD conseguirá cumprir todas as condições necessárias para garantir a continuidade e consolidação da Medicina?
Sim, não me passa outra coisa pela cabeça. Tudo faremos para que a universidade, daqui por dois anos, tenha todas as condições para continuar a formação.
Criamos condições excecionais para arrancar com o curso este ano, agora vamos trabalhar num novo Contrato-Programa para construir infraestruturas físicas, focadas e direcionadas para esta formação.
Naturalmente não estarão prontas em dois anos, mas será um sinal que estamos claramente a trabalhar para cimentar esta formação na nossa universidade.
Quando fala em infraestruturas físicas, estamos a falar de um hospital universitário?
Não. No mestrado integrado de medicina não temos a ambição de construir um hospital universitário. A ideia é a construção de uma Faculdade de Ciências da Saúde (o nome poderá ser outro, mas é esta a ideia).
O hospital de referência será sempre o de Vila Real, sendo que na ULSTMAD existem mais hospitais coo Lamego, Régua e Chaves. Contudo a ambição passa ainda por alargar a outras ULS próximas de nós.
Ao contrário da Medicina Veterinária, em que a universidade teve a necessidade de construir um hospital universitário porque não existia nenhum, neste caso trabalharemos em parceria com a ULSTMAD.
Já falamos brevemente sobre as residências, regressemos a esse assunto. A UTAD está a concretizar um importante investimento no alojamento estudantil e deverá ultrapassar as mil camas disponíveis. Que diferença fará este aumento da capacidade de resposta para quem escolhe Vila Real para estudar?
Defendo que Vila Real tem de manter um valor no alojamento que seja competitivo. Vemos hoje em cidade como o Porto ou Braga com os preços bastante elevados, é um risco que não podemos correr.
Este pode ser um fator concorrencial muito forte para a cidade e para a universidade.
Este aumento de camas permite nivelar um pouco a procura e oferta, entre público e privado, mantendo um certo nível de custo.
Um estudante quando pensa vir para Vila Real tem de perceber que aqui conseguirá um conjunto de mais valias que não encontra em outras cidades, e o custo da habitação é um fator preponderante.
Se um aluguer aqui custar 400€, um estudante do Porto, por exemplo, prefere ficar numa universidade privada a deslocar-se para Vila Real, é este risco que não podemos correr.
Mantendo-nos nas questões económicas. Qual o estado financeiro da universidade quando aqui chegou?
Esse é um tema sobre o qual ainda tenho algumas reservas em responder porque ainda não me consegui inteirar de tudo.
Tal como tinha nas minhas propostas, vamos realizar uma auditoria externa para perceber como estão as coisas.
Teme alguma surpresa?
Espero que não. Seria importante ter uma saúde financeira forte e consolidada.
No período anterior as universidades tiveram financiamento extraordinário que permitiu às universidades abraçar projetos inovadores. O próximo período não será assim, não haverá tanto financiamento.
A solução passa por aumentar o nosso financiamento através de projetos internacionais. É necessário mobilizar a academia, mas acredito que vai ser possível.
O seu programa prevê uma reorganização da estrutura da UTAD, nomeadamente com uma evolução para um modelo baseado em faculdades. O que pretende alcançar com essa mudança?
Há vários objetivos com esta mudança.
Desde logo é passar para o modelo de faculdades, largando as escolas, é um modelo muito mais ligado às universidades.
Depois é uma forma de tentar dar mais visibilidade a determinadas áreas de estudo.
É também uma oportunidade de dar mais autonomia a essas faculdades. Não será possível uma autonomia total porque não terão dimensão para isso, mas devemos tentar que dentro do possível sejam mais autónomas e responsáveis pelo seu desenvolvimento, oferta formativa ou corpo de docência, por exemplo.
Que impacto terá essa reorganização na vida dos estudantes, dos professores e dos restantes trabalhadores da universidade?
Tem um impacto grande, certamente.
De acordo com o novo RJIES, somos obrigados a rever os nossos estatutos. Vamos aproveitar esse momento para esta reformulação institucional.
Temos uma condicionante, que é o prazo. Temos até ao final de julho de 2027 para o fazer, o que para nós é um tempo curto. Daí dizer que há uma coisa que é aquilo que defendo, e outra é aquilo que conseguiremos fazer.
Nos próximos meses vamos eleger uma Assembleia Estatutária e só depois dos Estatutos aprovados é que podemos perceber com que alterações é possível avançar.
Tudo isto que estamos aqui a discutir, precisa de aprovação, por isso há essa condicionante.
Pegando nessa deixa, sente que ao fim de um mês no cargo, consegue ter uma UTAD unida?
Neste momento, sendo completamento honesto, acho que ainda não estamos nesse momento. Tivemos um período de cerca de dois anos em que se criaram divisões muito forte.
Foi um processo que deixou marcas.
São marcas sanáveis?
Penso que sim, com o tempo. A eleição para a Assembleia Estatutária será um passo nesse sentido.
É importante que assim seja para o bom funcionamento da universidade?
Sim, sem dúvida. Se isso não acontecer continuaremos num caminho com altos e baixos que não irá beneficiar ninguém, muito menos a própria instituição.
Volvidos dois meses da tomada de posse. Arrepende-se da decisão que tomou?
Não, voltaria a candidatar-me. Acho que o caminho que a universidade estava a fazer não era o melhor, por isso voltaria a tomar a mesma decisão.
A ligação com mais de três décadas que tem à UTAD deu-lhe um sentido de maior responsabilidade? Uma ligação também ela sentimental?
Sem dúvida alguma. Vivi a minha vida aqui, não só como professor, mas também como estudante, fiz a minha licenciatura aqui.
Sempre senti essa necessidade de estar envolvido no desenvolvimento da universidade. Inicialmente em áreas mais ligadas ao que é o meu perfil, e hoje no cargo que desempenho como reitor.
A região tem problemas muito concretos, como a perda de população jovem, a falta de mão de obra qualificada e a dificuldade em fixar talento. Pode a universidade assumir um papel ainda mais ativo na resposta a estes desafios?
Eu não diria que pode, eu diria que tem de assumir esse papel.
A universidade tem de ser um motor de desenvolvimento regional. A UTAD não se pode limitar à região, tem de ter um cariz internacional.
A universidade tem de ajudar a criar projetos e emprego qualificado para conseguirmos fixar pessoas. Se houver esse emprego qualificado as pessoas vêm para cá porque sabem que terão uma qualidade de vida muito superior ao que teriam em Lisboa ou no Porto.
Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para fomentar uma forte ligação aos municípios e outras instituições que nos possam ajudar a criar projetos, atividades culturais e muitas outras coisas.
Já estamos a trabalhar nisso e vamos continuar a trabalhar.
Dos estudantes colocados este ano (mais de 1500), na sua maioria (30,9%), são do distrito do Porto, 23,1% são Vila Real, 16,9 de Braga e 7,5 de Viseu. São muitos alunos que vêm de fora, uma oportunidade que não podemos deixar escapar.
Quando terminar o seu mandato, daqui a quatro anos, que universidade gostaria de entregar à comunidade académica e à região?
Gostaria de entregar uma universidade melhor preparada para desempenhar o seu papel, não só no ensino, mas também na investigação e desenvolvimento regional.
Uma instituição mais bem organizada, com as unidades orgânicas a funcionarem de uma forma estruturada, com boa comunicação e interligação. Com serviços que respondam à comunidade estudantil de uma forma que sejam quase transparente.
Temos que perceber que estamos numa altura muito particular e com desafios muito grandes, não só na UTAD como no país e no mundo, que terão certamente consequências para todos.