Entre o silêncio das encostas e o traço antigo do rio, há um Douro que não se revela à primeira vista. Fica para lá dos miradouros mais fotografados, dos roteiros previsíveis e das estradas principais. Mas antes de existir como projeto, esse Douro foi descoberto, com curiosidade, persistência e paixão, por quem hoje o dá a conhecer.
Natural da Guarda, Margarida chegou a Vila Nova de Foz Côa em 2017 para trabalhar na área do turismo. Tinha formação em Programação Cultural e um objetivo claro: construir o seu caminho profissional no interior. “Este território é muito bonito, mas o interior tem perdido gente, cabe-nos a nós tentar contrariar essa situação. Nunca tive a ambição de sair do interior, o meu objetivo era ficar na Guarda”.
O que começou como um trabalho acabou por se transformar numa relação duradoura com o território. Ao longo dos anos, foi sendo desafiada por visitantes que procuravam ir além do essencial. “A ideia deste projeto foi surgindo à medida que as pessoas me iam pedindo sugestões sobre o que fazer além da visita às gravuras. Estas questões também foram despertando a minha curiosidade sobre o território.”
Essa curiosidade levou-a mais longe. Explorou caminhos, descobriu quintas, restaurantes, ruínas e miradouros. Percebeu que Vila Nova de Foz Côa “não é apenas porta de entrada para o Vale do Côa, mas um território que reúne dois patrimónios mundiais: a arte rupestre e a paisagem vinhateira reconhecida pela UNESCO. Fui maturando a ideia e passado algum tempo decidi arrancar com este projeto, a ideia é exatamente mostrar o outro lado de Foz Côa, menos conhecido.”
Nascia assim a Douro On The Rocks, um projeto que hoje convida a descobrir o Douro Superior de forma íntima e personalizada, longe das rotas massificadas.
No coração do Douro Superior, onde a paisagem se torna mais selvagem e o tempo parece abrandar, “cada experiência é pensada como uma imersão”. A bordo de um veículo todo-o-terreno, os caminhos de terra batida atravessam vinhas antigas, muros de xisto e vales profundos, revelando um território que não se mostra a quem passa depressa.
Mas aqui não há um único caminho. O projeto estrutura-se em várias rotas, desenhadas para dar a conhecer diferentes faces da região. Da Rota do Douro Selvagem à Rota do Xisto Azul, que percorre a zona de Castelo Melhor, passando pela Rota das Uvas — onde se cruzam provas de vinhos, almoço e percurso offroad, ou pela Rota do Douro Internacional, pensada para um dia inteiro de descoberta.
Há também espaço para a história, com a Rota Arqueológica a passar por locais como o Museu da Casa Grande, em Freixo de Numão, ou para a gastronomia, na Rota do Sabor, que segue em direção aos Lagos do Sabor, em Moncorvo. Já a Rota das Aldeias “adapta-se ao que cada visitante já conhece, ajustando o percurso para revelar novos pontos de interesse”.
E porque não há dois viajantes iguais, também não há experiências rígidas. “A ideia passa também por adaptar rotas ao que o cliente procura.” Muitas vezes, o ponto de partida é simples: uma ideia, uma curiosidade, um lugar que alguém quer ver. A partir daí, o percurso ganha forma.
Em comum, “todas as rotas partilham momentos pensados para criar ligação com o território”. Um deles é a Wine Break, uma pausa que combina sabores e tradição: bola de carne caseira, figos secos com amêndoa, os chamados “Casamentos Perfeitos”, e um vinho escolhido para o momento.
A experiência pode ainda crescer para lá do percurso base. Passeios de barco, provas em quintas, piqueniques ou refeições em restaurantes típicos integram-se naturalmente no dia, sempre com um princípio orientador: autenticidade. “É importante para mim poder levar um cliente a um restaurante típico, afastado dos principais roteiros, e ter uma parceria para servir uma refeição onde provas os peixinhos do rio fritos e uma posta. Ou ir a uma queijaria local, com quem também tenho parceria, fazer um workshop ou uma prova de queijos com vinho”
Essa lógica de proximidade estende-se a todo o projeto. “O turismo só faz sentido se for trabalhado em rede.” Num território onde a oferta é mais dispersa, as parcerias tornam-se essenciais, com produtores, restaurantes, queijarias e outros agentes locais. “Mesmo as quintas que visito, são as mais pequenas, não gosto de chegar e ter um autocarro à espera. Tento proporcionar uma visita mais personalizada, mais intimista.”
É essa filosofia que define o posicionamento da Douro On The Rocks. “Este território não precisa, nem tem condições, para um turismo de massas, a aposta deve passar pelo turismo de proximidade. É precisamente isso que cada vez mais viajantes procuram, experiências onde se sente o território e a comunidade local”.
Apesar de trabalhar sobretudo com turistas portugueses, há um olhar claro para o futuro. A proximidade ao Douro mais conhecido, como o Pinhão ou a Peso da Régua, é vista como uma oportunidade. “Por vezes sou contactada para trabalhos no Pinhão ou na Régua, quando isso acontece, tento trazê-los para cá. A proposta passa por inverter o percurso habitual: viajar de comboio até ao Pocinho e, a partir daí, descobrir um Douro menos explorado, no final, levo-os de regresso ao alojamento”.
O objetivo mantém-se claro: trabalhar com grupos pequenos, criar experiências à medida e mostrar um território que muitos desconhecem, mesmo quando passam por perto. Ainda assim, a flexibilidade permite responder a desafios maiores, sempre com base numa rede de parcerias locais.
No fim, o que a Douro On The Rocks propõe não é apenas um passeio. “É uma forma de olhar o Douro, mais lenta, mais próxima, mais verdadeira”.
Em Vila Nova de Foz Côa, entre o rio e a pedra, descobre-se um território feito de detalhes: a luz que muda ao longo do dia, o sabor de um vinho provado na origem, o silêncio que se instala entre montes.