Douro: Terra Adotada

Do Irão para Vila Real: Firoozeh Sol encontrou na arte uma forma de criar comunidade

Há mudanças que começam com um objetivo bem definido e acabam por conduzir a caminhos inesperados. Para Firoozeh Sol, natural do Irão, a vinda para Portugal estava ligada à vontade de prosseguir estudos académicos, mas acabou por se transformar numa história de reinvenção pessoal e profissional, que hoje tem expressão num espaço onde a arte, a cultura e a criatividade se cruzam diariamente.

Chegou a Portugal em 2017, motivada pela possibilidade de realizar um doutoramento e também pela proximidade da irmã, que já vivia em Guimarães. Foi através dessa procura por uma bolsa de investigação que surgiu a oportunidade na UTAD.

“Quando vim, o objetivo era fazer doutoramento. A minha irmã ajudou-me a procurar uma bolsa e foi aí que apareceu a oportunidade na UTAD”, recorda.

Embora seja bióloga marinha, o projeto de investigação incidia sobre o fitoplâncton no Douro, uma área que não correspondia exatamente aos seus interesses. Ainda assim, encarou o desafio como uma oportunidade de crescimento.

“Não era um tema que me despertasse grande interesse, mas queria aprender e adquirir conhecimentos numa área diferente da minha.”

Após duas entrevistas realizadas por Skype, ainda a partir do Irão, acabou por ser selecionada entre cerca de 40 candidatos. No entanto, a experiência académica não correspondeu às expectativas.

“Trabalhei muito durante três anos e apliquei-me totalmente ao projeto, mas fiquei sempre com a sensação de que não encaixava na equipa.”

Quando o contrato terminou, em 2019, e a pandemia chegou pouco depois, as perspetivas de continuar o percurso académico desapareceram. Foi então que decidiu voltar-se para uma paixão que a acompanhava desde há muito.

“Já fazia trabalhos de ilustração no Irão e o Covid deu-me a oportunidade de criar o meu próprio site e dedicar-me à pintura todos os dias.”

A permanência em Vila Real foi acontecendo naturalmente e, com o passar do tempo, começou a ganhar forma um sonho antigo.

“Desde pequena imaginava-me a ter um espaço que misturasse café, arte, flores e outras atividades. No Irão este tipo de conceito é muito comum.”

Foi precisamente essa ideia que deu origem ao espaço que abriu em abril de 2024. Mais do que um café, trata-se de um local onde convivem exposições, produtos artesanais, workshops e eventos culturais. A receção, porém, tem sido um processo gradual.

“Ainda hoje há pessoas que entram e perguntam se isto é uma loja de antiguidades ou um restaurante”, conta entre risos. “Tem sido um processo lento este de mostrar às pessoas aquilo que faço e o que este espaço realmente representa.”

Uma das prioridades tem sido criar oportunidades para artistas e pequenos produtores que normalmente têm dificuldade em divulgar o seu trabalho. Ao longo do último ano organizou mercados temáticos, exposições e dezenas de workshops que, garante, têm registado uma adesão muito positiva.

“Percebi que existia procura por este tipo de atividades. Os workshops estão sempre cheios e isso mostra que as pessoas gostam de participar.”

Apesar disso, admite que nem sempre é fácil sustentar um projeto tão diferente daquilo a que a cidade está habituada.

“Há dias em que vendo apenas um café. No Irão, um espaço destes está sempre cheio de vida. As pessoas entram, conversam, compram produtos, participam nas atividades. Aqui sinto que ainda falta um pouco esse espírito de comunidade.”

Essa diferença é particularmente evidente na forma como os produtos artesanais são valorizados. Segundo Firoozeh, no Irão existe uma forte ligação à cultura, à arte e ao trabalho manual.

“Estamos habituados a valorizar uma peça feita à mão e a dar importância à sua exclusividade. Muitas vezes isso é mais importante do que comprar uma marca conhecida.”

Apesar das dificuldades, nunca pensou abandonar o projeto. Para o manter em funcionamento continua a dividir-se entre várias atividades, incluindo trabalhos de ilustração e colaborações com algumas quintas do Douro.

Ao longo dos anos também foi percebendo que existe algum desconhecimento sobre o Irão e a sua cultura. Embora diga nunca ter sofrido racismo diretamente, há situações que a fazem refletir.

“As pessoas perguntam quase sempre de onde sou mal começo a falar. No Irão isso não acontece e, por vezes, fica a sensação de que estamos a ser avaliados pela nossa origem.”

Ainda assim, prefere concentrar-se nos valores que procura transmitir através do espaço que criou.

“Sou uma pessoa que vive uma vida de paz, arte e cultura. Todos são bem-vindos aqui. Não pergunto a ninguém qual é a nacionalidade, a religião ou o clube de futebol.”

É essa visão que continua a orientar um projeto que nasceu de um sonho de infância e que hoje procura afirmar-se como um ponto de encontro para artistas, criadores e curiosos. O que começou como uma mudança motivada pelos estudos acabou por transformar Vila Real no lugar onde Firoozeh Sol encontrou uma nova forma de construir comunidade através da arte.

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