Alijó Douro: Terra Adotada

Do calor de Angola à tranquilidade do Douro

Há territórios que se descobrem por acaso e acabam por se tornar definitivos. Para alguns, o Douro começa como uma oportunidade de trabalho, mas rapidamente se transforma em casa, num processo feito de rotinas, afetos e pertença. É nesse percurso que se inscreve a história de António Domingos, que há cinco anos trocou Luanda, em Angola, por Favaios, no concelho de Alijó.

“Vim para Portugal na perspetiva de ter uma vida melhor. Queria conhecer mais da gastronomia portuguesa, mas também de outras partes do mundo. Quando apareceu a oportunidade de vir foi fácil decidir até porque o fator língua também ajudou”, recorda.

A mudança surgiu através de um amigo de longa data do atual patrão, que lhe falou de uma vaga na Quinta da Avessada. Chegou sozinho, já com uma ideia do que iria encontrar: “Avisaram-me que vinha para o Douro, para uma zona tranquila, sem discotecas e coisas assim, mas isso não me fez mudar de ideias até porque gosto de ambientes mais tranquilos.”

A adaptação acabou por ser mais simples do que poderia prever. Apesar de ter nascido em Luanda, António cresceu, em parte, no Bengo, uma zona mais rural. “Muito novo fui para o Bengo, uma zona mais tranquila da província”, explica, reconhecendo afinidades com o ambiente duriense.

O percurso profissional começou na Quinta da Avessada e evoluiu com o tempo. “Trabalhei na Quinta da Avessada e depois passei para o hotel, onde estou há dois anos”, conta. Atualmente, assume funções como chefe de cozinha na Casa da Padeira – Turismo Rural, mantendo-se fiel à área onde sempre trabalhou.

Na cozinha, cruza referências e identidades: “Pego em algumas receitas portuguesas e acabo por lhes dar um toque angolano. Tenho tido uma opinião positiva dos clientes.” Ao mesmo tempo, não abdica de mostrar as suas raízes: “Gosto de dar a conhecer os sabores do meu país. Há coisas que as pessoas não gostam, como o funge, por exemplo, mas é algo que gosto sempre de dar a conhecer.”

A estabilidade profissional abriu caminho a uma decisão mais profunda. Três anos depois de chegar, reuniu a família em Portugal. “Vim sozinho, três anos depois consegui tratar dos papéis da família e trazê-los para junto de mim.” Hoje vive com a mulher e as duas filhas, de 11 e 5 anos, sendo que a esposa também trabalha na Quinta da Avessada. “Atualmente tenho aqui uma vida estável, eu e a minha mulher temos trabalho e as nossas filhas estão bem integradas na escola.”

Mais do que uma escolha individual, foi uma decisão orientada pelo futuro das filhas. “Aqui o que me deu mais conforto foi a estabilidade e a segurança, foi isso que me fez trazer a minha família para cá também”, sublinha.

As diferenças entre os dois países tornaram-se evidentes, sobretudo no acesso a serviços essenciais: “A nível de educação, por exemplo, eu não tive muitas oportunidades de escolha e não queria isso para as minhas filhas, aqui são inúmeras as hipóteses de escolha, em Angola isso não acontece.” E acrescenta: “O mesmo acontece com a saúde, em Angola para termos um médico de família temos que desembolsar muito dinheiro.”

No quotidiano, as comparações são inevitáveis. “Acontece muitas vezes em Angola termos um serviço pago, como a luz, e não temos acesso porque simplesmente não há. Aqui há essa estabilidade, sabemos que pagamos água e luz e as coisas não faltam. Em Luanda cheguei a estar vários dias sem luz, mesmo tendo as faturas todas pagas.” Realidades que acabaram por pesar na decisão: “Tudo isto foi fazendo com que perdesse a esperança no meu país para as minhas filhas, então decidi fazer algo por mim e por elas, sob pena de elas não terem oportunidades, como me aconteceu. Elas acabaram por ser a motivação maior para esta mudança.”

Apesar da integração, a ligação a Angola permanece. “Estar longe provoca sempre saudades da nossa terra, mas vamos vendo fotografias e vídeos que vão ajudando a ultrapassar esse sentimento.” Ainda assim, há sentimentos ambivalentes: “Há também coisas das quais não sentimos falta, que até nos dão tristeza, mas é mesmo assim.”

A tecnologia ajuda a encurtar distâncias: “Atualmente as tecnologias ajudam, já não é apenas uma conversa por telefone, temos a possibilidade de ver as pessoas com quem falamos e isso encurta a distância.” Regressar, por agora, é apenas uma ideia para férias: “Regressar a Angola só mesmo em férias, para ver a família e conviver um pouco com os amigos. Voltar a viver agora em Angola já não é algo que esteja no meu pensamento.”

Em Favaios, António encontrou mais do que um emprego. Encontrou um lugar onde se sente parte. “Sinto-me bem aqui, já sou de cá, mesmo as pessoas acabam por me dizer isso na rua”, afirma. Essa integração reflete-se também na participação ativa na comunidade: “Já faço parte da associação de festas nos últimos três anos e mesmo as minhas filhas participam nas atividades que são organizadas pela Junta, pela Câmara ou por alguma associação. É também uma forma de estarmos mais integrados e nos sentirmos mais em casa.”

Nem todos fazem o mesmo caminho. “Tenho um amigo que também veio para cá na mesma altura que eu, mas acabou por não se adaptar a esta calma do Douro e acabou por ficar no Porto.” António, pelo contrário, encontrou nessa tranquilidade o equilíbrio que procurava. “Para mim é também uma inspiração e um exemplo. Falamos muito e acabamos por nos motivar mutuamente.”

Hoje, olha para trás com a certeza de ter feito a escolha certa. “Gostava que o meu irmão e os meus amigos olhassem para mim e fizessem o mesmo, para que todos pudessem ter uma vida melhor.”

Entre dois países, António construiu uma vida nova, com raízes que já se aprofundam no Douro e um futuro que se desenha, sobretudo, a pensar nas filhas.

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