Aos 23 anos, Diogo Guimarães divide os dias entre as exigências do curso de Engenharia Mecânica na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e a liderança de um projeto que desafia estudantes de todo o mundo a construir uma mota de competição.
Natural de Vila Real, mas com fortes ligações familiares ao Peso da Régua, cidade onde diz estar “o coração”, o jovem é atualmente o líder da equipa MotoStudent FEUP, um projeto universitário que junta dezenas de estudantes de diferentes áreas para desenvolver uma mota elétrica de raiz.
Aluno do 3.º ano, Diogo está ligado ao projeto há cerca de dois anos e assumiu recentemente a liderança da equipa, num desafio que combina engenharia, gestão e trabalho em equipa.
A escolha do curso não foi imediata, mas desde cedo sabia que queria seguir um caminho ligado às ciências exatas. “Sabia que não queria seguir a área da saúde. Teria de ser algo relacionado com a matemática e a física, mas não sabia bem o quê”, recorda. Depois de alguma pesquisa, decidiu apostar na engenharia mecânica e encontrou na FEUP uma oportunidade que ia além das aulas.
“Percebi que tinha também a oportunidade de integrar projetos que me permitissem ter maior contacto com a parte prática”, explica.
Um projeto que junta várias engenharias
Foi precisamente essa vertente prática que o levou a candidatar-se a um dos projetos estudantis da faculdade. Nem tudo correu bem à primeira tentativa: no primeiro ano tentou entrar numa equipa, mas não conseguiu vaga. Mais tarde, voltou a candidatar-se e acabou por integrar a MotoStudent.
Os projetos abrem vagas no início de cada semestre e os candidatos são selecionados com base em critérios definidos pela equipa. Foi assim que entrou na estrutura, inicialmente dedicado à área das estruturas da mota.
“A MotoStudent funciona em ciclos de dois anos. Entrei a meio do primeiro ciclo para trabalhar no desenvolvimento das peças que compõem a estrutura da mota, como o chassis ou o suporte do motor”, explica.
Primeiro focou-se na fase de design e mais tarde na montagem da mota, já no verão. A disponibilidade para ajudar em diferentes tarefas acabou por lhe valer a confiança dos colegas.
“Tentava ajudar no que fosse necessário. Acho que foi essa atitude e a paixão mostrada que me fez merecer a confiança da equipa para liderar o projeto neste segundo ciclo”, conta.
A equipa é composta por estudantes de várias áreas da engenharia, o que torna o projeto verdadeiramente multidisciplinar. “Temos elementos de mecânica, informática, eletrotecnia, ambiente, civil e gestão industrial. É um grupo aberto a qualquer área da faculdade, desde que possa aportar algo à equipa.”
Assumir a liderança obriga, por isso, a ter uma visão global do projeto. “Ao liderar acabo por ter de ter conhecimento das diferentes áreas que estão envolvidas.”
Entre aulas e noites na oficina
Conciliar o curso com a liderança de um projeto deste tipo exige organização e muitas horas de trabalho. Diogo admite que as semanas mais exigentes podem ser intensas.
“Fazer um curso de engenharia já implica muita dedicação e muitas noites mal dormidas. Liderar um projeto destes em simultâneo implica mais trabalho, mas basta sabermos organizar o tempo.”
Apesar das exigências, o estudante garante que tem conseguido acompanhar o percurso académico e espera concluir a licenciatura no final deste ano.
Há, contudo, momentos particularmente exigentes, sobretudo perto da competição. “Na semana que antecedeu a competição não houve um dia em que chegasse a casa antes das duas ou três da manhã.”
A oficina funcionava praticamente sem parar. “Quando o pessoal de mecânica acabava o trabalho às dez da noite, entrava o pessoal de eletro que ficava até de manhã. Funcionávamos por turnos”, recorda entre risos.
Uma competição mundial
O objetivo final do projeto é participar na competição internacional MotoStudent, que decorre no circuito de Aragão, em Espanha, e reúne equipas universitárias de vários países, incluindo Estados Unidos, Itália ou Espanha.
Cada equipa tem de desenvolver uma mota de competição e depois demonstrar o seu desempenho em diferentes provas. A corrida é a prova com maior pontuação, mas há também desafios de aceleração, perícia ou gincana. Para além da componente em pista, os organizadores avaliam igualmente a gestão do projeto.
“Temos de apresentar um dossier com todas as especificações da mota, o orçamento e a forma como o dinheiro foi aplicado”, explica Diogo.
No primeiro ciclo do projeto, a equipa conseguiu levar a mota à competição, mas acabou por não entrar em pista devido a um pequeno problema técnico.
Apesar da frustração, o balanço foi positivo. “De todas as equipas que estavam lá pela primeira vez, fomos os únicos a conseguir ter uma mota montada. As restantes chegaram apenas com projetos em papel ou algumas peças.”
Esse resultado deixou boas indicações para o futuro. “Acabámos por mostrar que éramos capazes e os avaliadores elogiaram o nosso projeto.”
55 mil euros para construir uma mota
Desenvolver uma mota de competição exige recursos significativos. Só a inscrição na competição custa cerca de cinco mil euros e o orçamento global do projeto ronda os 55 mil euros.
O financiamento vem de várias fontes, desde o apoio da universidade a parcerias com empresas privadas.
“Há empresas que já conhecem este tipo de projetos e com essas acaba por ser mais fácil estabelecer parcerias. As que desconhecem exigem mais trabalho porque temos de mostrar bem como podem beneficiar ao estarem associadas a nós.”
Para Diogo, estas parcerias são também uma forma de aproximar os estudantes do mundo profissional. “Estar envolvido num projeto destes dá-nos competências que depois serão úteis no mercado de trabalho. Hoje em dia as empresas já começam a olhar para lá dos currículos.”
Uma aposta na mobilidade elétrica
A equipa optou por desenvolver uma mota elétrica, uma decisão que abre novas possibilidades tecnológicas.
“Escolhemos fazer uma mota elétrica porque nos permite envolver mais áreas da engenharia do que uma a combustão”, explica.
Além disso, acredita que se trata de um campo ainda pouco explorado. “Já se fala muito dos carros elétricos e de banir os carros a combustão, mas sobre motas fala-se menos. É um mercado que tem ainda muita inovação por criar.”
O objetivo: Top 20 mundial
A equipa já está a trabalhar no segundo ciclo do projeto e tem metas claras para a próxima participação na competição, prevista para outubro de 2027.
“O objetivo é ficar no Top 20”, afirma.
O desafio não é pequeno. Algumas equipas chegam à competição com meios logísticos impressionantes. “Há equipas que aparecem com verdadeiros camiões-oficina onde conseguem fazer qualquer reparação.”
Muitas são apoiadas por grandes marcas da indústria motociclista. “Há equipas patrocinadas pela BMW ou pela Ducati. É outro campeonato”, admite.
Ainda assim, a equipa portuguesa mantém a ambição. “Também há equipas com orçamentos semelhantes ao nosso e outras portuguesas com quem gostamos de competir.”
Para Diogo Guimarães, o objetivo vai além da classificação. Trata-se de provar que o talento nacional pode competir ao mais alto nível.
“Queremos mostrar que Portugal tem capacidade neste tipo de projetos.”
E deixa ainda um desejo pessoal: “Gostava muito de ver alguma empresa da minha região a apoiar este projeto. Para mim seria um grande orgulho".