O percurso de Cristina Machado na enologia começou muito antes da universidade. Natural de Gouvinhas, no concelho de Sabrosa, cresceu entre vindimas, rogas e o ritmo intenso que acompanha a vida da vinha.
“Já nasci na azáfama das vindimas, das rogas, de tudo isso que envolve a vida da vinha”, recorda. Uma ligação precoce ao mundo vitivinícola que acabaria por influenciar, mesmo sem o perceber de imediato, o caminho profissional que viria a seguir.
Apesar de a enologia não ter sido a sua primeira escolha, acabou por ingressar na licenciatura da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), onde começou a construir uma formação marcada pela diversidade de experiências. Enquanto estudava, foi realizando estágios de vindima em empresas com realidades muito distintas, desde estruturas familiares, como a Quinta dos Murças, até grandes adegas ligadas a grupos como a Sogrape.
“Passei por realidades completamente diferentes”, explica. Um contacto que lhe permitiu perceber desde cedo que “a enologia vai muito além da adega e que cada projeto exige abordagens próprias, tanto técnicas como humanas”.
Mais tarde integrou um projeto que descreve como “muito interessante e completo”, composto por duas quintas, uma delas já com vinha no Távora-Varosa. Foi aí que teve a oportunidade de acompanhar todo o processo produtivo, desde a vinha até ao produto final, experiência que considera decisiva na sua formação enquanto enóloga.
“Foi aí que fiz o meu primeiro espumante em método clássico”, recorda. O projeto acabou, contudo, por não ter continuidade após a morte do proprietário, levando-a a procurar um novo rumo profissional.
A mudança acontece em 2013, já depois de ser mãe de duas filhas. À procura de “um maior equilíbrio entre a vida profissional e familiar”, entra para a Cooperativa Agrícola do Távora, onde permanece até hoje como responsável de enologia.
“Quando cheguei, a Cooperativa produzia cerca de 600 mil garrafas por campanha. Atualmente, aproxima-se dos dois milhões. Um crescimento expressivo que trouxe consigo novos desafios. Hoje o mercado já reconhece o nosso padrão de qualidade e esse tem de ser mantido”, sublinha.
Para Cristina Machado, aumentar a produção sem comprometer a identidade dos vinhos “exige um rigor técnico permanente, maior controlo dos processos e uma organização cada vez mais exigente”.
“Atualmente, a Cooperativa conta com 10 referências de espumantes sob minha responsabilidade, cinco delas já da minha autoria”. Entre os projetos que destaca estão o Terras do Demo Verdelho, lançado em 2016, e uma edição especial de Rosé apresentada este ano.
“Trabalhar numa cooperativa é uma realidade muito própria dentro da enologia. Ao contrário de projetos familiares ou quintas de menor dimensão, o contacto com a vinha nem sempre acontece desde o início do ciclo produtivo. Muitas vezes só vemos as uvas quando elas chegam à adega”, explica. Ainda assim, considera precisamente esse contexto um dos aspetos mais desafiantes e estimulantes da profissão.
Nos primeiros anos, a relação com os produtores nem sempre foi simples. “Inicialmente tive muitas discussões com produtores”, recorda, entre sorrisos. A resistência à mudança era frequente e a frase “sempre foi assim” repetia-se muitas vezes.
Com o tempo, porém, o cenário mudou. “Hoje os nossos produtores são muito cuidadosos e questionam muitas vezes sobre o que podem ou devem fazer.” Uma evolução que atribui ao trabalho conjunto e “à crescente consciência da importância da qualidade da matéria-prima”.
Durante a vindima, o controlo começa logo na receção das uvas. “Quando chegam uvas que não estão num estado ótimo, são encaminhadas para cubas específicas”, explica. Numa estrutura desta dimensão, um pequeno problema pode rapidamente comprometer grandes volumes de produção. “Um problema com 500 litros de mosto pode estragar uma cuba de 40 mil litros.”
Essa responsabilidade estende-se muito para além da vinificação. Cristina Machado acompanha processos de loteamento, controlo de qualidade, logística de aquisição de produtos enológicos e até à expedição dos vinhos. “O trabalho é diferente, tem desafios diferentes, por isso também gosto de trabalhar aqui”, afirma.
É precisamente na identidade da região que encontra uma das maiores motivações do seu trabalho. “O Távora-Varosa tem condições excelentes para fazer grandes vinhos, com acidez e frescura natural”, destaca. Para a enóloga, o segredo está em respeitar aquilo que o território oferece naturalmente.
“Não é necessário muito para fazer um bom espumante. Basta respeitar o produto, que ele já é bom por natureza”, sublinha.
Nas diferentes referências produzidas pela cooperativa, existe a preocupação de preservar a identidade de cada vinho. “É gratificante chegar ao fim e perceber que cada espumante tem o seu sabor e a sua marca identitária.”
Apesar da qualidade reconhecida dos espumantes da região, acredita que ainda existe margem para crescer em notoriedade. Destaca o trabalho desenvolvido pela Comissão Vitivinícola Regional na promoção do território, mas considera que há novos caminhos a explorar, sobretudo ligados ao enoturismo.
“Temos talvez agora de procurar novos desafios como o enoturismo, aliando os nossos produtos à história e paisagem da região”, defende.
Ao mesmo tempo, alerta para os impactos das alterações climáticas, que obrigam a uma adaptação constante. Ainda assim, considera essencial preservar aquilo que distingue o Távora-Varosa. “Acima de tudo temos de continuar a manter a nossa identidade.”
O reconhecimento alcançado através de prémios e distinções é, para si, uma recompensa importante num trabalho onde o risco está sempre presente. “São muitas horas passadas a trabalhar um produto que, se algo corre mal, pode ficar estragado”, refere.
Ao longo do percurso, enfrentou também desafios associados ao facto de ser mulher num setor tradicionalmente masculino. “Nunca fui desrespeitada, mas senti alguma desconfiança no início”, admite. Recorda sobretudo os tempos de estágio, quando muitos enólogos não partilhavam conhecimento, levando-a a aprender muito por iniciativa própria.
“Fui estudando e fazendo sozinha”, conta. Um processo em que reconhece também o apoio do marido, igualmente enólogo. “Ter um marido que também é enólogo e disponível para me ajudar obviamente torna tudo mais fácil”.
Hoje, olha para o percurso com naturalidade e até algum humor. A maior surpresa acabou por surgir em casa. A filha mais velha, que em criança reclamava frequentemente das ausências dos pais durante as vindimas, está prestes a terminar o curso de enologia.
“É só uma casa que se perde assim”, brinca, entre risos. “Tenho muito orgulho nela, mas foi uma surpresa depois do tanto que ela reclamava em criança.”
Uma história construída entre tradição, aprendizagem contínua e capacidade de adaptação. E onde a enologia continua a ser, acima de tudo, um trabalho de dedicação permanente ao vinho e ao território.