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Crédito Agrícola | António Cardoso: “Financiar a agricultura é investir no território e nas pessoas

Caixa de Crédito Agrícola Mútuo do Vale do Távora e Douro celebra este ano um marco histórico: 100 anos de existência ao serviço das comunidades locais e do desenvolvimento do território. Fundada em 1926, esta instituição cooperativa tem acompanhado de perto a evolução de uma região marcada pela interioridade, mas também por uma forte identidade agrícola, cultural e paisagística.

A sua área social abrange os concelhos de Tabuaço, Armamar, Penedono, Sernancelhe e Moimenta da Beira, no distrito de Viseu, bem como Aguiar da Beira e Trancoso, no distrito da Guarda.

Trata-se de um território profundamente ligado ao sector agroalimentar, onde se destacam a vitivinicultura - integrada na região do Douro Vinhateiro, classificada como Património Mundial da UNESCO - bem como a produção de maçã, azeite e castanha, assente maioritariamente em explorações de carácter familiar.

Num contexto marcado pelo envelhecimento demográfico e pelos desafios da coesão territorial, a CCAM do Vale do Távora e Douro tem assumido um papel central no apoio à economia local. Com mais de 7.700 associados, 66 colaboradores, depósitos superiores a 421 milhões de euros e um volume de crédito concedido que ultrapassa os 228 milhões de euros, dos quais cerca de 65% direcionados ao sector agrícola, a instituição evidencia uma forte ligação ao território e uma aposta consistente no financiamento da atividade produtiva. A solidez financeira é também um dos seus pilares, refletida num rácio de solvabilidade superior a 33%.

Para além da atividade bancária, a Caixa distingue-se ainda pela sua intervenção social, nomeadamente através da Fundação da Caixa Agrícola do Vale do Távora e Douro, que desenvolve um trabalho relevante nas áreas da inclusão, educação, apoio social e dinamização comunitária. Ao longo de um século, a Caixa acompanhou gerações de agricultores, empresas e famílias, afirmando-se como um parceiro financeiro de proximidade e como um agente ativo no desenvolvimento económico e social da região.

Nesta entrevista, o Presidente do Conselho de Administração, António Cardoso, reflete sobre o percurso centenário da instituição, o papel do Crédito Agrícola no desenvolvimento das regiões rurais e os desafios que colocam ao futuro do sector financeiro e do mundo rural.

Caixa de Crédito Agrícola Mútuo do Vale do Távora e Douro celebra este ano 100 anos de existência. Que significado assume este marco histórico para a instituição, para os seus associados e para o território onde se insere?

Cem anos são muito mais do que uma data no calendário, são um século de confiança construída dia a dia, muitas vezes em contextos adversos. A CAM do Vale do Távora e Douro nasceu em 1926, numa região que dependia quase inteiramente da agricultura para sobreviver, e ao longo de um século atravessou guerras, crises económicas, transformações tecnológicas e profundas mudanças no próprio sector bancário. O facto de termos chegado até aqui com solidez financeira e com uma relação de grande proximidade com os nossos associados e clientes é, por si só, motivo de orgulho. Para os nossos associados, muitos deles agricultores que trabalham estas terras há gerações, este centenário representa a confirmação de que uma instituição cooperativa, de proximidade e comprometida com o território, tem um papel insubstituível.

Para o território do Vale do Távora e Douro, estes 100 anos mostram também que o desenvolvimento rural é possível quando existe uma instituição financeira que conhece as pessoas, compreende os ciclos agrícolas e aposta no longo prazo.

Ao longo de um século, o Crédito Agrícola tem desempenhado um papel importante no apoio às economias locais. Como caracteriza hoje a identidade da CCAM do Vale do Távora e Douro enquanto instituição cooperativa?

A nossa identidade é, antes de tudo, uma identidade de território. Não somos uma sucursal de um banco nacional que segue orientações de uma sede distante, somos uma cooperativa enraizada nesta região, gerida por pessoas que aqui vivem e que conhecem bem as necessidades reais dos agricultores, dos empresários locais e das famílias da região. Essa ligação ao território traduz-se em decisões mais ágeis, em soluções adaptadas à realidade agrícola nomeadamente aos ciclos das colheitas - e numa relação de confiança que a banca comercial dificilmente consegue replicar. Acreditamos nos princípios cooperativos de autonomia, transparência e responsabilidade partilhada. Os nossos associados não são apenas clientes, são co-proprietários da instituição e têm voz ativa nas decisões estratégicas. Este modelo, que noutros contextos poderia parecer antiquado, revelou-se extraordinariamente resiliente e continua a fazer pleno sentido no século XXI.

Num contexto em que a banca enfrenta profundas transformações, o modelo de proximidade continua a ser um fator diferenciador do Crédito Agrícola? De que forma essa proximidade se traduz no dia a dia da relação com clientes e associados?

Sem dúvida. E talvez nunca tenha sido tão diferenciador como agora. Vivemos num contexto em que a banca digital avança a grande velocidade, os balcões físicos fecham em todo o país - sobretudo nas zonas rurais e interiores - e as pessoas deparam-se com interfaces digitais que nem sempre conseguem substituir o contacto humano. Na nossa área social, muitos clientes são agricultores com mais de 60 anos, que fazem parte da instituição há décadas e que valorizam poder falar com alguém que os conhece pelo nome, que entende o que é gerir uma exploração agrícola.

Quando um agricultor precisa de financiamento para a campanha de vindimas para investir num equipamento de rega, não pode esperar semanas por uma resposta de um call center. Essa capacidade de dar respostas rápidas contextualizadas e humanizadas é o nosso principal fator de diferenciação, e também a razão pela qual continuamos a apostar na nossa rede de agências de proximidade nesta região.

A região do Vale do Távora e Douro apresenta uma forte ligação ao sector agroalimentar. Que importância tem este sector na atividade da Caixa e no desenvolvimento da economia local?

O sector agroalimentar é o coração da nossa atividade. Esta região tem um potencial agroalimentar extraordinário.

O Douro é uma das mais antigas regiões demarcadas do mundo e os seus vinhos têm projeção internacional crescente. A produção de maçã de qualidade superior está também a ganhar reconhecimento dentro e fora de Portugal. A produção de azeite e castanha, impulsionadas pelos novos investimentos, é outra aposta promissora. Quando a Caixa financia uma adega cooperativa, apoia um jovem agricultor no investimento em novos pomares, ou apoia a modernização de uma pequena unidade de transformação de vinho, não está apenas a gerar negócio, está a contribuir para fixar pessoas no território, a preservar

O Crédito Agrícola é, em muitos territórios, um verdadeiro fator de coesão paisagens e tradições, e a sustentar economias locais que de outra forma seriam abandonadas. Num território como o nosso, apoiar a agricultura é apoiar toda a comunidade.

A Caixa tem também uma vertente social muito relevante através da Fundação da Caixa Agrícola do Vale do Távora e Douro. Que papel desempenha esta Fundação na comunidade e de que forma complementa a missão da própria Caixa?

A Fundação é a expressão mais visível do nosso compromisso com o território para além da atividade financeira. Ela atua em áreas onde o mercado, por si só, não chega - no apoio a projetos educativos e de formação profissional na área agrícola, no patrocínio de iniciativas culturais que preservam o património desta região, no apoio a associações social dirigidas às populações mais locais e em ações de responsabilidade vulneráveis. Este trabalho complementa perfeitamente a missão da Caixa, enquanto a instituição financeira garante o acesso ao crédito e a instrumentos financeiros que sustentam a atividade económica a Fundação fortalece o tecido social e cultural sem o qual qualquer desenvolvimento económico perde significado.

Quais são hoje as principais prioridades estratégicas da CCAM do Vale do Távora e Douro, num contexto marcado por exigências crescentes ao nível da regulação, da digitalização e da competitividade no sector financeiro?

Temos três grandes prioridades estratégicas para os próximos anos. A primeira e a digitalização responsável, queremos modernizar os nossos serviços e oferecer ferramentas digitais que facilitem a vida dos clientes, sem abdicar do modelo de proximidade que nos distingue. Investir na aplicação móvel, no homebanking e na automatização de processos internos é essencial para sermos mais eficientes. mas isso nunca vai substituir os nossos balcões de proximidade nas localidades onde somos muitas vezes a única instituição financeira presente.

A segunda prioridade é o reforço da nossa capacidade de apoio ao sector agroalimentar, nomeadamente através de produtos financeiros adaptados à transição para práticas agrícolas mais sustentáveis - apoio ao regadio eficiente, a agricultura biológica, à certificação de qualidade.

A terceira é a solidez financeira, num quadro regulatório cada vez mais exigente, manter rácios robustos de capital e de solvabilidade é condição indispensável. para podermos continuar a servir o território com qualidade e consistência.

A Caixa mantém uma relação próxima com organizações do sector agroalimentar da sua área social. Que importância atribui às parcerias com outras organizações e que impacto têm estas ligações no desenvolvimento do território?

As parcerias são fundamentais numa região como a nossa, onde o desenvolvimento só é possível com uma articulação eficaz entre cooperativas, associações, autarquias, escolas e outras entidades da economia social.

Posso dar um exemplo concreto: durante vários anos, a região foi fortemente afetada pela queda de granizo, que em alguns casos comprometia grande parte das colheitas de maçã. Foi então desenvolvido um projeto para instalação de torres anti-granizo, uma tecnologia inovadora de proteção das produções, ao qual a nossa Caixa aderiu, em colaboração com várias entidades da região.

A CCAM do Vale do Távora e Douro participou ativamente na viabilização e financiamento desse investimento, que representou um montante significativo. contribuindo para aumentar a proteção das explorações e a estabilidade da produção. Estas parcerias permitem-nos chegar mais eficazmente aos nossos clientes e às suas necessidades reais.

Este é um bom exemplo de como a cooperação permite concretizar projetos estruturantes para o território. Numa região do interior, com recursos limitados, a cooperação não é apenas importante, é uma necessidade estratégica.

Dada a importância do sector agroalimentar para a economia e para a coesão territorial, considera que este deve ser assumido como um desígnio nacional? E que papel podem as instituições financeiras, nomeadamente o Crédito Agrícola, desempenhar nessa estratégia?

Sim, e diria que esta é uma das questões mais urgentes que Portugal tem pela frente. O sector agroalimentar faz parte do sector primário, não sendo apenas um sector económico como qualquer outro - é um fator estratégico de soberania alimentar, de coesão territorial e de sustentabilidade ambiental. Num país onde o interior perdeu população nas últimas décadas, ignorar o potencial da agricultura é agravar ainda mais os desequilíbrios territoriais que têm custos sociais muito elevados. O Crédito Agrícola pode desempenhar um papel central nesta estratégia, não apenas como financiador - disponibilizando linhas de crédito adaptadas aos ciclos produtivos e apoiando o acesso a fundos europeus - mas também como parceiro no acompanhamento dos investimentos, na ligação entre produtores e mercados, e na promoção de boas práticas de gestão.

Mas para que isso aconteça plenamente, é importante que as políticas públicas e os reguladores reconheçam o modelo cooperativo de crédito como um instrumento estratégico de desenvolvimento rural. As Caixas de Crédito Agrícola são, em muitos territórios, um verdadeiro fator de coesão territorial.

Para terminar, que mensagem gostaria de deixar aos associados, clientes e à comunidade, neste ano simbólico em que se celebram os 100 anos da instituição?

Financiar a agricultura é investir no território e nas pessoas.

Em primeiro lugar, uma palavra de profundo agradecimento.  100 anos são o resultado do trabalho e da confiança de muitas gerações de associados, clientes, colaboradores e dirigentes que acreditaram nesta instituição e neste território.

Sem esse compromisso coletivo não estaríamos aqui.

Este centenário não é um ponto de chegada, é uma plataforma de lançamento. O Vale do Távora e Douro tem um potencial imenso: uma paisagem de valor patrimonial único, uma agricultura de qualidade reconhecida internacionalmente, comunidades com uma identidade cultural forte. A Caixa quer continuar a ser o parceiro financeiro de referência para todos os que investem e trabalham neste território - para os agricultores que modernizam as suas explorações, para os jovens que regressam ou que querem começar aqui a sua vida profissional, para as empresas que investem na transformação e na exportação dos nossos produtos. O nosso compromisso é claro: estaremos aqui, próximos, atentos e disponíveis, como estivemos nos últimos 100 anos. E continuaremos a trabalhar para que o próximo centenário seja ainda melhor para todos.

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