Cultura Vila Nova de Foz Côa

As gravuras não sabem nadar e o Côa continua a escrever a sua história

“As gravuras não sabem nadar”. A frase que há três décadas saiu dos cartazes dos estudantes de Vila Nova de Foz Côa e se tornou o símbolo da luta contra a barragem do Côa voltou este ano a ecoar nas celebrações dos 30 anos do Museu do Côa. A diferença é que, desta vez, as gravuras estavam a salvo.

Em 1994, quando a dimensão e importância da arte rupestre do Vale do Côa começaram a ser conhecidas, a construção da barragem ameaçava submergir parte significativa daquele património. A mobilização da população, estudantes e comunidade científica ganhou dimensão nacional e contribuiu para a decisão de abandonar o projeto e preservar as gravuras. O slogan, inspirado no tema “Nadar”, dos Black Company, tornou-se a imagem de uma luta que acabaria por mudar o destino do território.

Trinta anos depois, a frase regressou no âmbito das comemorações do aniversário do Parque Arqueológico do Vale do Côa. Para João Paulo Sousa, presidente da Fundação Côa Parque, recuperar essa memória é também uma forma de aproximar as novas gerações do património. “Acho que a partir de hoje a visão que há sobre as gravuras rupestres não será mais a mesma porque se nota que há uma maior envolvência dos jovens”.

Mas as comemorações não se limitaram a recordar a luta que salvou as gravuras. O Côa continua a ser um território de descoberta. Em 2026, foram identificadas 69 novas rochas com arte rupestre em seis sítios diferentes, fazendo subir para mais de 1.600 o número de rochas conhecidas, distribuídas por 104 sítios arqueológicos. Em 1994, quando a polémica em torno da barragem ganhou dimensão nacional, eram conhecidas cerca de 80 rochas em 14 sítios.

“Passados 30 anos da sua classificação, o Vale do Côa continua a surpreender pelas suas novas descobertas e uma história que continua a ser narrada através da investigação e de parcerias que a Fundação tem vindo a desenvolver. Quanto mais dedicação dermos ao Côa, mais descobertas teremos. Só desta forma, no último ano, foi possível descobrir 60 novas gravuras em diferentes locais do Parque Arqueológico”, afirma João Paulo Sousa.

Para o responsável da Fundação, esta capacidade de continuar a revelar novos elementos é uma das características que tornam o Côa único. “É preciso darmos uma atenção especial ao Côa, porque não estamos a falar de um vale qualquer. Estamos a preservar a maior biblioteca da arte rupestre do mundo”.

Um território transformado

Para Pedro Duarte, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Foz Côa, as últimas três décadas representam uma profunda transformação do território. “O reconhecimento do Vale do Côa pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade foi a afirmação de um território extraordinário”.

O autarca sublinha que o valor do Côa ultrapassa a existência das gravuras. “O Vale do Côa não é apenas um conjunto de gravuras rupestres. É um dos antigos testemunhos da criatividade humana”.

A criação do Parque, do Museu e de uma estrutura dedicada à investigação e valorização do património permitiu transformar aquilo que esteve ameaçado de desaparecer num dos principais ativos culturais do interior português. “O trabalho de investigação científica não termina e a Câmara está ao lado da Fundação na preservação e salvaguarda da arte rupestre do Vale do Côa, que é património mundial”.

Desde a abertura do Parque ao público, em 1996, mais de 400 mil pessoas já visitaram o território, confirmando também a transformação da relação entre Foz Côa e o seu património.

“Um exercício de contemplação da Humanidade”

António José Seguro aproveitou a celebração dos 30 anos para olhar para o caminho percorrido desde a descoberta das gravuras e para aquilo que o Côa representa hoje. O Presidente da República começou por recordar a importância de acreditar numa causa. “Começo por dizer-vos que as causas em que acreditamos valem a pena. Há trinta anos, eram poucos os que, olhando para este vale, imaginavam que hoje estaríamos aqui”.

Três décadas depois, Vila Nova de Foz Côa ganhou uma nova relação com o seu património. O Parque Arqueológico, o Museu e o auditório são hoje realidades consolidadas e o nome de Foz Côa ganhou uma projeção que dificilmente teria alcançado sem as gravuras. “Trinta anos depois podemos falar deste museu e deste auditório como realidades”, afirmou Seguro, antes de sublinhar que Vila Nova de Foz Côa “entrou no mapa das nossas referências culturais, no mapa das nossas viagens familiares, no mapa das belezas que todos sabem existir nesse vale”.

Mas a celebração dos 30 anos ganha outra dimensão quando colocada perante os milhares de anos de história que as gravuras testemunham. “Mas 30 anos não são nada. Eu falo-vos de 20 mil anos de espera até hoje”, afirmou o Presidente, para quem visitar e contemplar o vale é mais do que observar vestígios arqueológicos. “Olhar para este vale não é um pormenor – é um exercício de contemplação da Humanidade”.

Seguro defendeu ainda que o Côa é um projeto em permanente construção e destacou a importância da cultura para a coesão dos territórios. “É por isso que falar do Parque Arqueológico é referir um trabalho em construção permanente, porque acreditamos no papel da cultura como cimento das comunidades e dos territórios”.

A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, destacou igualmente a dimensão universal do Côa e apontou os próximos desafios: aprofundar a investigação científica, reforçar a conservação, melhorar as condições de visitação e valorizar o contributo do Parque e do Museu para o desenvolvimento cultural, turístico e económico da região.

O futuro passa também, na visão de António José Seguro, por reforçar a ligação entre o Vale do Côa e o Douro Vinhateiro, duas áreas classificadas como Património Mundial pela UNESCO. “O Douro e o Vale do Côa não são apenas paisagens para contemplar. São paisagens habitadas”.

Trinta anos de memória, arte e futuro

As comemorações dos 30 anos procuraram, por isso, juntar passado e futuro. A recriação das manifestações que marcaram a luta contra a barragem devolveu às ruas uma memória decisiva para a história do território, enquanto as novas descobertas demonstraram que o Côa continua longe de ter contado toda a sua história.

Também a cultura e as artes tiveram lugar neste aniversário. A Filandorra – Teatro do Nordeste levou ao Museu do Côa “As Bacantes”, de Eurípides, numa apresentação que integrou as comemorações e aproximou o teatro clássico da paisagem e do património arqueológico do vale. A peça acrescentou uma dimensão artística a um programa que procurou celebrar não apenas aquilo que o Côa foi, mas também aquilo que continua a poder ser.

Três décadas depois de uma geração ter saído à rua para dizer que as gravuras não sabiam nadar, o Côa continua a revelar novas histórias. O desafio agora é garantir que esse património continua a ser investigado, preservado e vivido.

“O Côa lembra-nos que o interior de Portugal não é um território do passado. É um território de memória, de identidade, de conhecimento e de oportunidade. Deem uma oportunidade ao interior. Há 30 anos, preservámos o Côa. Agora temos de preservar e criar futuro para as pessoas que fazem do interior de Portugal a sua casa. Não pode haver um país do litoral e um país do interior. Há só um Portugal”, concluiu António José Seguro.

 

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