Estimados Leitores,
A democracia local vive de proximidade, conhecimento do território e compromisso com as populações. No entanto, tem-se tornado cada vez mais frequente assistir à presença de candidatos que surgem “de fora”, sem ligação real às comunidades onde pretendem exercer funções. São, na prática, atiradores políticos: aparecem em período eleitoral, procuram capitalizar oportunidades e desaparecem sem deixar raízes nem trabalho feito.
Este fenómeno não é apenas um detalhe incómodo — é um problema estrutural que fragiliza a qualidade da representação democrática. Quem não conhece a realidade de uma terra dificilmente compreende as suas necessidades, as suas prioridades ou até a sua identidade. A política local exige mais do que ambição: exige pertença, experiência vivida e um compromisso genuíno com o desenvolvimento da comunidade.
A crescente mediatização da política e a lógica partidária centralizada têm contribuído para esta distorção. Em vez de se valorizarem quadros locais, com conhecimento profundo do terreno, opta-se frequentemente por soluções de conveniência, escolhendo candidatos com visibilidade ou alinhamento estratégico, ainda que desligados da realidade que se propõem governar.
Perante este cenário, torna-se urgente repensar a legislação eleitoral autárquica. Um primeiro passo essencial seria garantir legalmente que as listas sejam compostas maioritariamente — ou mesmo exclusivamente — por pessoas com ligação efetiva às respetivas comunidades. Não se trata de fechar portas, mas de assegurar que quem se candidata tem um mínimo de enraizamento e conhecimento do território.
Por outro lado, importa também rever o número excessivo de candidatos exigidos para a constituição de listas. A atual obrigatoriedade de apresentar equipas extensas e suplentes correspondentes a um terço dos efetivos acaba, muitas vezes, por comprometer a qualidade em favor da quantidade. Em vez de se construírem listas coesas, com pessoas preparadas e motivadas, assiste-se à inclusão de nomes apenas para cumprir requisitos legais e que muitas vezes são chamados dos corredores do poder de Lisboa apenas para encher as listas. Este modelo não serve a democracia.
Reduzir o número de candidatos necessários permitiria maior rigor na escolha, incentivando a formação de equipas mais qualificadas, coesas e verdadeiramente representativas. A política local ganharia em seriedade, eficácia e credibilidade. A democracia não se esgota no ato eleitoral. Vive da confiança entre eleitos e eleitores, da proximidade e da responsabilidade. E essa confiança constrói-se com pessoas que conhecem, vivem e sentem as suas terras.
Reformar as regras não é apenas uma questão técnica, é uma exigência democrática. Se queremos autarquias mais fortes, mais representativas e mais eficazes, então temos de começar por garantir que quem lá chega está verdadeiramente ligado às comunidades que serve.
E agora é a altura pois tivemos eleições recentemente e as alterações a realizar têm bastante tempo para serem analisadas, discutidas, decididas e implementadas a tempo de estarem consolidadas nas próximas eleições de 2029.
A política local merece mais do que candidatos de ocasião. Merece compromisso, conhecimento e autenticidade.