Natural de Sernancelhe, formado em enologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Miguel Cerveira é um dos novos enólogos que tem desenvolvido o seu trabalho na região Távora-Varosa, inicialmente para a Família Hehn e, mais recentemente, com a criação de uma marca própria, os vinhos Antolice.
Numa conversa com o jornal VivaDouro, o enólogo conta um pouco do seu percurso e dos desafios da enologia.
No decorrer da licenciatura, Miguel fez um estágio na Herdade dos Grous (Alentejo), casa que acaba por se tornar a primeira experiência profissional após terminar a licenciatura.
“Terminei o curso na altura da pandemia, o que levantou logo muitos receios, era uma fase um pouco estranha e difícil, mas tinha estado a estagiar na Herdade dos Grous e convidaram-me para regressar e fazer mais uma vindima.
Durante essa segunda estadia lá acabaram por me apresentar uma proposta que eu aceitei. Acabei por ficar lá dois anos, tempo durante o qual também trabalha na Quinta de Valbom, no Douro, que pertencia aos Grous.
No Valbom fazia também alguma parte de viticultura que, apesar de não ser uma área de estudo do meu curso, eu tinha experiência da minha casa. Atualmente o trabalho é mais dividido. Enquanto antes o enólogo fazia um trabalho e o engenheiro agrónomo fazia outro, hoje ambos trabalham as duas áreas.
Ainda acontece um enólogo receber uvas na adega e só aí perceber o produto que tem para trabalhar, mas já são poucos os casos. O enólogo está cada vez mais envolvido em todo o processo e, mesmo na plantação da vinha, a sua opinião é útil para definir a linha que o projeto irá seguir”.
Para Miguel Cerveira, uma licenciatura em enologia não estava nos planos, pretendia estudar outras áreas, mesmo que também ligadas ao setor agrícola. Com enologia a aparecer quase por acaso, Miguel acabou por se apaixonar pela área e prosseguir a licenciatura. As vinhas que o pai tinha e tratava durante o fim de semana na companhia de Miguel e do irmão, davam ao enólogo alguma experiência na área.
“A certa altura da adolescência o meu pai perguntou se queria continuar a estudar, respondi que sim, mas não sabia bem o quê.
O meu pai tinha um terreno com menos de dois hectares de vinha, que tratava ao fim de semana e eu e o meu irmão ajudávamos. As vinhas sempre fizeram parte da vida da minha família.
Quando era altura de me candidatar à universidade tinha de tomar uma decisão, estava indeciso entre Zootecnia ou Engenharia Agronómica. Por uma questão de exames, só na segunda fase poderia concorrer a engenharia, então decidi candidatar-me aa enologia na primeira fase e acabei por entrar, e decidi ficar. O meu interesse era mais na vinha propriamente, do que no vinho”.
Com a decisão tomada, Miguel prossegue a licenciatura em enologia que o leva até ao Alentejo no primeiro estágio curricular. Para o enólogo este foi o momento em que percebeu a paixão que tinha pela enologia.
“A primeira vindima de estágio foi essencial para aumentar o meu interesse nesta área, a tal experiência que tive nos Grous. É a primeira vez que metemos realmente as mãos na massa e percebemos o que estamos a fazer.
Posso dizer que se sou o enólogo que sou hoje, muito devo àquela casa que me abriu muitos caminhos.
Saímos da universidade com conhecimento teórico, muitas vezes até um pouco longe até da realidade atual do setor, ali temos oportunidade de realmente sentir o que fazemos.
Depois de ficar a trabalhar nos Grous, ficava pelo Alentejo durante a semana e vinha ao Douro aos fins-de-semana. Quando efetivamente me apresentaram a proposta, como eu era daqui do Norte, convidaram-me a ficar na Quinta de Valbom, na Régua. Como tinha os conhecimentos de viticultura acabei por ficar também a trabalhar essa área.
Ia ao Alentejo uma semana por mês para podermos organizar os processos e o resto do tempo ficava pelo Douro. Ao longo de um ano foi assim até que um enólogo acabou por sair e fiquei também responsável pela enologia no Alentejo… aí já passava as semanas de um lado para o outro (risos), mas foi uma época interessante.
Aprendi muito por me darem a responsabilidade de fazer, dentro das normas da casa era eu que orientava o trabalho na vinha, ou na adega, por exemplo. Foi uma experiência muito boa”.
A experiência de trabalhar em duas regiões vinícolas como o Alentejo e o Douro acabaram por dar a Miguel um conhecimento mais alargado dos diferentes processos de produção, como o próprio admite.
“Iniciar a minha vida profissional com realidades tão distintas como são estas duas regiões é muito interessante e dá-nos desde logo uma visão mais abrangente do setor. Das castas aos processos de vinificação até aos vinhos, o Douro e o Alentejo são muito diferentes. Acompanhar tudo isto ‘por dentro’ torna-se especial, recordo, por exemplo o processo de plantação de 40 hectares de vinha no Alentejo que aconteceu em um ano, foi impressionante”.
O regresso às origens era quase inevitável para o enólogo natural de Sernancelhe e acabou por acontecer em 2022, com a primeira vindima com a Família Hehn, casa com quem ainda hoje trabalha.
Estando na região e com vinhas na família, Miguel cria a sua própria marca, Antolice, vinhos com um perfil familiar, que vão buscar o nome aos seus avós, António e Alice. Sendo um projeto de assinatura própria, estes vinhos permitem ao enólogo expressar melhor o seu gosto, como explicou.
“Na fase inicial era difícil, não tinha experiência e a proposta que tive foi apelativa, mas voltar cá para cima, regressar para Távora-Varosa para produzir espumantes que sempre gostei. Fui estudando e pesquisando até que surgiu a oportunidade de vir para a casa onde ainda estou hoje, e que o portefólio é 90% espumantes, os vinhos Hehn.
Sendo de cá, há sempre aquele bichinho de regressar a casa e fazer algo especial. No caso deste setor, ter uma marca própria e contribuir para o crescimento de uma região tão especial como esta, pequena e com poucos produtores que se conhecem todos.
Estava aqui, a trabalhar no setor e já tinha experiência que sentia que precisava para arrancar com o meu projeto, a decisão acaba por surgir naturalmente. Não posso dizer que fosse uma meta, mas quem segue este ramo acaba por ter isso sempre no pensamento.
Trabalhar para alguém, por muita liberdade que tenhamos, acabamos sempre por estar sujeitos ao gosto de outra pessoa, essa é a nossa função. Ter um vinho em nome próprio já nos permite definir o que queremos, que perfil de vinho pretendemos apresentar. É um projeto de assinatura, o meu vinho sou eu.
Aqui (vinhos Hehn) faço vinhos com a assinatura da casa, que vai de acordo ao gosto do seu consumidor que já conhece este produto há mais de 20 anos.
O importante, seja enólogo com marca própria ou uma grande adega, é criar o seu perfil, para que o consumidor saiba o que pode encontrar, não produzir vinhos de acordo com as modas do mercado, que mudam rapidamente, perdemos a ligação com o consumidor.
Com passagens pelo Douro e Alentejo, produzir vinhos de Távora-Varosa trouxe novas aprendizagens e desafios ao enólogo, que admite que esta é uma região especial.
A dezena e meia de produtores e a meia dúzia de centros de produção da região são características que identificam Távora-Varosa, o trabalho colaborativo é constante com produtores e enólogos a partilharem os centros de vinificação.
“A região Távora-Varosa é especial, quando chegamos a uma vinha e provamos um bago de uma determinada uva, nós sabemos que não vamos precisar de lhe mexer muito porque já percebemos que vinho temos ali, isto não acontece noutras regiões do país.
O facto de haver poucos produtores, parcelas pequenas e adegas pequenas, conseguimos fazer uma gestão mais imediata. Se provarmos a uva e estiver no ponto que procuramos, no dia seguinte vindimamos, conseguindo ajustar o que temos no campo e levar para a adega.
Fazendo cada um o seu trabalho, com a sua marca, acabamos por trabalhar em conjunto a nível regional com o objetivo de valorizar a região. Partilhamos experiências que nos permitem perceber como evitar erros, ou mesmo melhorar algum processo. Quando assim é todos saímos a ganhar. Sendo poucos é fundamental estarmos juntos”.
Apesar das experiências em outras regiões do país, Miguel Cerveira acabou por nunca ter uma experiência no estrangeiro, ao contrário de vários dos seus colegas. Apesar da situação estável atual, a hipótese não está ainda descartada para o enólogo que tem sempre curiosidade de saber mais sobre o setor.
“Tenho vários colegas que já foram, já tive mais vontade de ir, mas ainda tenho alguma curiosidade. A verdade é que neste momento estou bem, estou confortável aqui na região e não penso nisso. É sempre bom e importante conhecer mais, saber mais sobre o setor, ganhar novas experiências. Já ambicionei mais do que ambiciono hoje, mas ainda gostava de fazer uma vindima lá fora (risos)”.